GEB, PB, OPB? Dr. R. Scott Clark, (re)intérprete do movimento e da teologia batista.

Não é de hoje que o Dr. R. Scott Clark arranca os cabelos quando ouve a expressão “Batistas Reformados”. Um oxímoro, diz ele, sem meias palavras. A reação é muito parecida, diga-se de passagem, com a dos batistas calvinistas que se ultrajam ao serem postulados herdeiros dos anabatistas. Mas Clark já ultrapassou os limites da ética intelectual, institucional e pessoal do Cristianismo, tendo sido alertado por seus próprios companheiros a respeito de sua má conduta. Um dos interlocutores de Clark costumava ser Brandon Adams, que sempre interagiu de forma cordial e respeitosa para com seu irmão, colhendo disso diversos banimentos, exclusões e restrições de postagem no Heidelblog.

Recentemente, o Dr. Clark decidiu “interagir” com “1689”. Devido à ausência de Adams do blog, quem tem feito as vezes de antagonista maior do teólogo presbiteriano, comentando extensivamente nos posts do Heidelblog em defesa da visão batista reformada, é Amy Mantravadi (que recentemente esteve em um interessante episódio do podcast Mortification of Spin e se prestou a elaborar uma exposição do aliancismo batista reformado em seu blog). Paralelamente, Samuel Renihan, que muito esporadicamente se manifesta em seu site Particular Voices, fez duas postagens, em tom francamente irênico, traçando observações pontuais sobre a visão de Clark (Soft Rain on Tender Grass e We All Have Our Types).

Em todas essas interações, parece-me que um ponto tem sido amplamente negligenciado, um ponto de importância maior. Expressei a questão da seguinte forma, no Twitter:

Por sua reação, parece que Sam está de acordo.

Traduzo e explico.

“Eu acho que o Dr. Clark está fazendo um ótimo trabalho para a sua causa ao deslocar o uso do termo RB [Batistas Reformados] para PB [Batistas Particulares]. Ele, assim, reconfigura os termos do debate…”

É verdade que Scott Clark emprega um termo historicamente preciso, qual seja, “Batistas Particulares”. É compreensível e coerente, ademais, que em todos os seus escritos ele se recuse, consistentemente, a chamar os batistas de “batistas reformados” (RB). Mas o que é notório, isso sim, é a maneira pela qual Clark tem reconfigurado os termos do debate sobre o aliancismo reformado. Ao se debruçar sobre as minúcias da teologia reformada da aliança, resta muito pouco espaço (ou interesse) para que interlocutores abordem o problema da identidade batista. Clark aproveita, assim, para empregar os termos que melhor lhe convêm, excluindo para sempre de seus posts o termo “Batistas Reformados”.

Mais do que isso, Clark se apresenta como um intérprete da teologia batista aliancista, oferecendo uma pitoresca taxonomia própria. Não apenas faz uso do termo PB, como forja a sigla OPB (Older Particular Baptist) e GEB (Generic Evangelical Baptists. Não espanta que o único termo ausente ali seja RB, i.e., Reformed Baptists. Não haveria maiores problemas nisso, caso os batistas reformados se engajassem nessa dimensão dos termos técnicos. Mas o que tem ocorrido, entretanto, é que os batistas reformados têm aceitado os termos propostos por Clark e os incorporado em suas falas. Basta uma rápida olhada pelos antigos posts do Heidelblog para encontrar diversas referências aos “reformed baptists”, quando o termo ainda parecia digno de defesa entre os interlocutores de Clark. Nos últimos posts do blog, porém, os batistas reformados têm assimilado ingenuamente, e às vezes até entusiasticamente, o uso do termo PB, em vez de RB. Não é de hoje que os pedobatistas procuram forjar nomes para os batistas.

É claro que o termo PB faz jus à qualificação do século XVII. Mas eu já me debrucei aqui sobre o problema das nomenclaturas quando o assunto é a história do movimento batista. É evidente, para qualquer um que se ponha a arrazoar sobre o assunto, que Clark não o emprega visando a precisão histórica, mas sim a desqualificação histórica. Pela rota dos vocábulos, pelo caminho das palavras, pelo trilho lexical, Clark procura negar qualquer direito de herança dos batistas sobre a tradição reformada. Não emprega “RB” porque estes não existem. Tudo o que existe são os os “PB” (e suas variantes pioradas), essa quase seita idiossincrática dentre muitas da Inglaterra setecentista.

“…desconecta os Batistas da tradição reformada e passa ao largo do problema da identidade batista.”

Além dos problemas já abordados, o uso do termo “Batistas Particulares” para se referir aos atuais batistas reformados é um desserviço histórico. Os Particulares do século XVII se identificavam dessa forma para firmar sua distinção em relação aos Batistas Gerais, e não em relação aos Reformados. Antes, davam por certo sua derivação da matriz reformada, por isso não cabia qualquer sinalização nominal dessa filiação. Hoje, entretanto, a necessidade mais premente dos batistas aliancistas é de se afirmarem herdeiros da tradição reformada, e não apenas defensores da expiação limitada, como sugere o nome Batistas Particulares.

Se a alcunha “Batistas Particulares” triunfar, isso se dará por obra de nossos irmãos presbiterianos e isso se dará, também, para grande prejuízo semântico dos batistas reformados, já que o nome sugeriria que o distintivo desses Batistas Particulares seria apenas a anuência com as doutrinas da graça, e não de todo o sistema reformado: uma teologia da aliança, o princípio regulador de culto e os sacramentos como meios de graça. Dito de outra forma, empregar o termo Batistas Particulares para se referir aos atuais Batistas Reformados é transpor um termo relevante no contexto intra-batista para um contexto peculiar inter-reformado. “Particulares” nunca serviu para demarcar território entre os batistas e os reformados, e sim no interior do movimento batista. Chamá-los apenas de Batistas Particulares obscurece o fato de que eles tinham muito mais em comum com os reformados presbiterianos e independentes do que a expiação limitada. Em suma, o termo Batistas Particulares fora um elemento importante na diferenciação – historicamente sensível – entre os batistas. O termo Batistas Reformados é um termo crucial na aproximação – historicamente verificável e presentemente necessária – com a tradição reformada.

A verdade, e com isso concluo, é que muitas boas causas já foram perdidas no campo de batalha da taxionomia e da semântica, antes mesmo que chegassem nas trincheiras da lógica. Seria lastimável ver esse fenômeno se processar por uma jogada – e um descuido – de linguagem. Quantas trincheiras mais precisarão ser transpostas, no futuro nos for assim ingrato, para demonstrar as afinidades entre os batistas reformados e seus colegas reformados?

“Talvez não devêssemos ceder tanto assim”.

Uma resposta

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