Glen H. Stassen: 5 motivos para o estudo histórico dos Batistas Particulares

Em um artigo seminal e controverso, intitulado Anabaptist Influence in the Origin of the Particular Baptists, ao qual ainda voltarei em breve, Glen H. Stassen apresenta cinco motivos pelos quais a historiografia sobre os batistas deveria passar por um tour de force e privilegiar a história dos Batistas Particulares, em detrimento dos batistas gerais. Transcrevo, em sequência, as notas de rodapé que julguei relevantes no texto original. Mantive a numeração original das notas de Stassen. Ao final, ofereço uma breve apreciação de suas ideias.

Dois tipos distintos de Batistas se desenvolveram no início do século XVII, na Inglaterra, com origens históricas distintas, teologias conflitantes e pouco contato um com o outro. Os Batistas Gerais tiveram início na primeira década sob a liderança de John Smyth e Thomas Helwys. Os Batistas Particulares tiveram início independentemente em 1638 ou 1640 e foram liderados por John Spilsbury e Richard Blunt.

A historiografia batista se concentrou no primeiro grupo. Todavia, há pelo menos cinco razões conclusivas do porquê o foco histórico deveria mudar para os Batistas Particulares:

Primeiro, os Batistas Particulares são os pais dos atuais Batistas. Sua decisão sobre o batismo, e não a decisão de John Smyth, é a origem “da qual os Batistas modernos, tanto na Inglaterra quanto na América, derivaram em geral. Os Batistas Gerais pereceram em grande parte, descarrilharam para o unitarismo”.²

Segundo, os Batistas Particulares introduziram o significado do batismo enquanto um testemunho à morte, enterro e ressurreição de Cristo. Os Batistas Gerais simplesmente mantiveram o significado prevalecente do batismo como uma lavagem e purificação sacramental do recipiente, mudando apenas a ênfase para a lavagem interior do coração ou da consciência do indivíduo.

Terceiro, os Batistas Particulares introduziram a forma Batista do batismo enquanto imersão, enquanto os Batistas Gerais praticavam aspersão.4

Quarto, os Batistas Particulares se iniciaram sem influência demonstrável dos Batistas Gerais, e por razões diferentes. Eles não apenas acrescentaram a imersão ao entendimento Batista Geral do batismo; eles não se iniciaram como Batistas Gerais, mas como Congregacionais, e eles desenvolveram sua teologia com conceitos alheios aos Batistas Gerais. Suas razões para adotar o batismo de crentes, para transformar o significado do batismo e para praticar a imersão foram diferentes das razões que motivaram os Batistas Gerais. Portanto, as origens batistas são gravemente distorcidas se nós nos concentramos nos Batistas Gerais e apenas damos crédito aos Batistas Particulares por acrescentar a imersão.

Finalmente, como os próprios Batistas Particulares perceberam, sua decisão foi um afastamento novo e sério, único e independente, e não uma modificação menor de uma tradição na qual eles não se enquadravam. Eles não sabiam quantos homens os seguiriam em sua decisão, mas eles sabiam que estavam se aventurando em algo totalmente novo na Inglaterra, algo sobre o quê orar e debater com zelo, buscar conselhos e proceder acauteladamente. Sua decisão merece nosso estudo.

Por essas cinco razões, nós devemos concordar com o apelo de Norman Maring de que a questão das origens Batistas deva se concentrar sobre os Batistas Particulares, e não nos Batistas Gerais. (…).7

(Anabaptist Influence, pp. 322, 323).

² Charles R. Andrews, “The Maine Wheele That Sets Us Aworke…,” Foundations, I, Número 3 (Julho 1958), p. 29. Em defesa dos Batistas Gerais, deve ser dito que o Sr. Andrews pode ter generalizado um pouco em excesso ao consigná-los, todos, tão definitivamente à morte e ao Unitarismo. Alguns poucos sobreviveram, alguns se juntaram aos Menonitas, aos Quakers e aos Batistas Particulares. Mas nós concordamos com seu ponto de que os Batistas Particulares são mais importantes para o movimento Batista subsequente do que os Batistas Gerais, e que a ênfase da historiografia Batista deveria se redirecionar para os Batistas Particulares.

4 Existe um vestígio de evidência extremamente incerta de que “um Batista” (Batista Geral? Anabatista?) praticou imersão em 1635. A referência a ele não oferece seu nome ou sua localização, e nem mesmo diz explicitamente que ele praticou imersão. Ademais, a referência é feita por alguém que estava procurando combater a [afirmação] polêmica de que ‘Uma sucessão de Batizadores [Batistas] não continuou naqueles tempos de perseguição, e portanto nenhum homem tem aquela Autoridade para batizar…’ cf. Burrage, Early English Dissenters, I, pp. 378-79. Mesmo se nós aceitarmos tal evidência incerta, ela própria admite que retrata apenas um incidente isolado e inusual. Assim, ela concorda com a conclusão universal dos estudos contemporâneos de que são os Batistas Particulares que devem ser creditados com a origem do batismo de crentes por imersão no interior da denominação Batista.

7 Maring, op. cit., pp. 93-94. Os Batistas Gerais ‘sempre representaram uma pequena parcela da vida Batista na Inglaterra, e uma parcela ainda menor na América. Sua influência sobre as correntes principais da vida Batista em qualquer um dos países parece ter sido sutil. De fato, se se conceder sua conexão com os Anabatistas, essa conclusão teria pouca relevância sobre o entendimento do pensamento e vida Batista convencional.” Essa posição tem similaridades com a posição de W. H. Whitsitt, A. H. Strong e J. H. Shakespeare, da maneira sumarizada em Torbet, op. cit., p. 61. Torbet, por outro lado, afirma que segue Vedder em sua conclusão de que “após 1610, nós temos uma sucessão inquebrantável de igrejas Batistas…” (p. 61). Nosso ponto, entretanto, é que os Batistas Particulares não sucederam aos Batistas Gerais, tampouco estavam eles na mesma tradição, nem significavam a mesma coisa pelo batismo. Assim, embora os Batistas tenham tido suas origens na Inglaterra em 1610, eles tiveram uma segunda origem independente em 1638-41. E é essa origem segunda, independente, que é o nosso interesse primário. Ela não pode ser entendida como uma continuação do movimento dos Batistas Gerais, com a adição da imersão como a forma do batismo. Os Batistas Gerais não devem ser ignorados como os Batistas Particulares o são hoje. Mas certamente uma apresentação balanceada requereria alguma mudança na ênfase.

Sendo (1) o primeiro motivo de Stassen &tc,

É verdade (1) que o batismo dos Particulares é o protótipo do batismo moderno entre as denominações batistas, mas é inegável o papel de John Smyth na formação de doutrinas cruciais dos batistas históricos, inclusive particulares, tema ao qual também voltarei em breve.

Se procede que (2) a teologia sacramental dos Particulares é uma inovação não derivada dos Gerais, é uma impropriedade afirmar, sem qualificação, que os Gerais “praticavam aspersão”. Uma outra tradução possível, mas que não parece condizer com o contexto, seria afirmar que os Gerais “praticaram” aspersão, o que é correto. Nunca é demais lembrar que o primeiro tratado sobre batismo imersivo na Inglaterra saiu de uma pena batista Geral: A Small Treatise of Baptisme, or, Dipping (1641), de Edward Barber. A prática da imersão tornou-se unânime entre os Batistas Gerais, ainda que tenha sido introduzida pelos Batistas Particulares.

Tenho reservas sobre a apresentação (5) de Stassen do marco batista inicial. Sua descrição, baseada em uma “decisão”, conscientemente inovadora, propositalmente nova e ousada, cheira-me quase a uma apologética revolucionária.

Por fim, desconfio um pouco, até o presente momento, do retrato de Stassen e Maring acerca dos Batistas Gerais (n.7). Se é verdadeiro que o século XVIII e XIX veem um arrefecimento da influência Batista Geral, a mim, parece-me que os Batistas Gerais são muito mais ativos e possuem muito mais voz do que os Particulares durante o século XVII. Eu atribuo isso ao fato de que era muito mais fácil um membro do Parlamento ou do Exército inglês, durante o período revolucionário, filiar-se aos batistas gerais do que aos particulares. Isso porque, justamente devido à relação muito mais demonstrável entre os Batistas Gerais e os Anabatistas, os Gerais acabavam sendo mais um dentre os muitos setores religiosos radicais na Inglaterra do século XVII. Esse é o motivo, também, pelo qual era mais fácil um Batista Geral se tornar um Quaker ou um Ranter do que um Batista Particular.

*

STASSEN, Glen H. Anabaptist Influence in the Origin of the Particular Baptists, in: The Menonite Quarterly Review, XXXVI, n. 4 (Out 1962), pp. 322-348.

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