A relação entre as primeiras igrejas Batistas e as igrejas Menonitas da Holanda

Agora, entre esta igreja em Amsterdã e as Cinco Igrejas na Inglaterra, havia reais diferenças de opinião e prática. Os Holandeses nunca adotaram o comunismo dos Anabatistas Moravianos, mas eles se posicionaram firmemente contra prestar juramentos, contra aceitar cargos de magistratura, contra lutar. E os Ingleses estavam preparados para fazer qualquer dessas coisas. Daí que os dois grupos de pessoas, que a essa altura estavam divididos por nenhuma outra questão de princípio, tenham se mantido para sempre separados.

W. T. Whitley, A History of British Baptists, p. 55.

Seguindo no propósito da investigação das relações entre batistas e anabatistas, é oportuno discorrer sobre as relações travadas entre algumas das primeiras igrejas Batistas na Inglaterra, todas elas pertencentes ao grupo que mais tarde seria chamado de “Batistas Gerais”, e as igrejas Menonitas holandesas, descendentes diretas do movimento anabatista e assim concebidas amplamente pelos ingleses do período. Em outra ocasião, debruçar-me-ei sobre as igrejas inglesas “da Separação” que se firmaram na Holanda. Por ora, acompanharemos apenas uma delas, a de John Smyth. Vejamos, em primeiro lugar, como se comporta, no que concerne à relação com os Anabatistas, a igreja plantada por Smyth na Holanda, juntamente com a porção dos regressos sob a direção de Thomas Helwys e, por fim, a relação de seis igrejas inglesas com os Menonitas.

A igreja Smyth-Helwys

A. C. Underwood disserta da seguinte forma acerca da primeira igreja batista inglesa, inicialmente em território holandês e posteriormente repatriada:

Em 1600, Smyth foi apontado Palestrante da Cidade de Lincoln, pelo então considerável estipêndio de quarenta libras por ano […]. Depois de muita inquietação e uma grande monta de ansiosa consideração, ele decidiu, por volta de 1606, se separar da igreja da Inglaterra. Ele encontrou um corpo de Separatistas em Gainsborough e foi escolhido e ordenado seu pastor. […]

As autoridades eclesiásticas não demoraram para descobrir e perseguir esta igreja Separatista, que em 1608 emigrou para Amsterdã, sendo os recursos para a emigração oferecidos, aparentemente, por um próspero membro da igreja, Thomas Helwys de Broxtowe Hall, Nottinghamshire.

A History, pp. 34-35.

Na Holanda, Smyth convenceu-se de que o batismo infantil era um erro, e de que todo batismo deve ser ministrado sob profissão de fé. W. T. Whitley relata que

Entretempos, Smyth não se demorou e em 1609 dissolveu a igreja aliançada da qual tinha sido o cabeça, batizou a si mesmo e então batizou todos os outros. Asim nasceu a primeira Igreja Batista Inglesa cuja história pode ser traçada, da qual um braço exerceu culto em Londres até a última década do século XIX.

A History, p. 21.

Mas Smyth, dotado de uma inteligência vivaz e um espírito inconstante, não tardou a dar um novo passo em sua busca espiritual, aproximando-se ainda mais dos Menonitas holandeses, o que resultou em uma divisão basilar de sua igreja. É Underwood, mais uma vez, que relata esse desdobramento:

Um outro crítico perguntou a ele [Smyth] por que ele não foi atrás, para seu batismo, de um dos presbíteros dos Anabatistas Holandeses. Essa observação chamou sua atenção para os Menonitas Waterlanders, com os quais ele rapidamente abriu diálogo. Desta vez, Smyth falhou em levar todo seu povo consigo. Ele levou a maioria, mas Thomas Helwys e cerca de dez outros ficaram de fora. Eles tinham sérias hesitações em relação à Cristologia Hoffmannita dos Menonitas, e parecia a eles que Smyth estava pondo em perigo sua posição contra a velha ideia de uma sucessão de ministros, à qual os Menonitas conferiam real importância. Helwys assumiu a visão de que, se apenas presbíteros poderiam batizar, isso equivaleria a voltar atrás na ideia de uma sucessão apostólica. […] O grupo de Helwys, portanto, excomungou Smyth e se pronunciaram ‘a verdadeira Igreja’.

Smyth, tranquilo, prosseguiu com suas negociações com os Menonitas, com os quais ele havia trocado confissões de fé. Ele fez uma petição formal aos Waterlanders para admissão em sua igreja. O documento, com a caligrafia de Smyth, ainda existe nos arquivos menonitas e dá os nomes de quatorze homens e dezessete mulheres que se juntaram com Smyth ao fazer a petição. Eles reconheceram seus erros em realizar um começo independente, enquanto havia uma igreja ao alcance em que eles poderiam ter obtido batismo. O documento é intitulado: ‘Os nomes dos Ingleses que reconhecem [n]isso seu erro e disso se arrependem, viz., que eles tomaram para si o batizar a si mesmos, contrariamente à ordem estabelecida por Cristo: e que agora desejam, doravante, ser unidos a uma verdadeira Igreja de Cristo, o mais rápido o possível’. Então seguem-se os nomes dos homens e mulheres, dispostos em colunas separadas. O documento conclui: ‘Nós unanimemente desejamos que esta determinação nossa seja comunicada à Igreja.’

[…]

Próximo do fim de agosto de 1612, Smyth morreu de desgaste. Sua igreja fez outra petição para se unir aos Menonitas. Desta vez eles foram bem sucedidos e foram admitidos como membros da Igreja Waterlander, em 21 de janeiro de 1615. Depois de um tempo eles aprenderam a língua holandesa e casaram-se com holandeses, e assim eventualmente se perderam enquanto uma comunidade autônoma.

A History, pp. 39-45.

Thomas Helwys, por outro lado, resistiu tenazmente a essa união, conforme a narrativa de Whitley:

Diferindo de Smyth na política de união com os Menonitas, ele abandonou a igreja de Smyth, junto com três homens e quatro ou cinco mulheres, e se persuadiu de que este pequeno grupo era a igreja, excomungando a porção bem maior com a qual tinham rompido. Eles foram além e se corresponderam com os Menonitas, instigando-os a não se unirem com o grupo de Smyth. Para ter uma audiência, ele forneceu a eles dezenove artigos em Latim, revisados dos vinte com que Smyth lhes tinha provido; e esta sinopse foi naquele momento traduzida, expandida e rearranjada em vinte e sete artigos, impressos em 1611 como uma Declaração de Fé do povo Inglês remanescente em Amsterdam, na Holanda.

A History, p. 30.

“Seis Igrejas Batistas, e suas diferenças dos Anabatistas”

O subtítulo é uma seção da obra de Whitley no capítulo sobre os Batistas Gerais. A narrativa é longa, mas pode ser resumida como se segue.

Após a morte de Helwys, John Murton assumiu a igreja batista londrina. Devido a problemas internos, a igreja procurou auxílio dos Menonitas. Os problemas persistiram, a igreja se dividiu em duas, a segunda porção sendo liderada por um Elias Tookey. Este, por sua vez, também buscou reconhecimento (e talvez união) com os Waterlanders, o que lhes foi negado por divergências relevantes em suas profissões de fé. Murton, por sua vez, se aproximou de outras quatro igrejas inglesas (cuja origem Whitley busca traçar brevemente) e procurou, conjuntamente, reconhecimento e união com os ditos Menonitas (um movimento que Helwys certamente desaprovaria). As quatro igrejas estavam localizadas em Lincoln, Sarum, Coventry e Tiverton.

Assim, vejamos.

No início de 1623/24, problemas internos surgiram na igreja de Londres e mensageiros foram enviados a Amsterdã para aconselharem-se com as ‘igrejas Holandesas e Inglesas de Jesus Cristo naquele lugar.’ Os Menonitas Waterlanders em Amsterdã ainda eram liderados por Hans de Ries, enquanto a igreja formada por Smyth, agora liderada por Thomas Piggott, embora cultuando na panificadora, em Inglês, tinha ainda laços frouxos com os Waterlanders. Os mensageiros trouxeram de volta uma carta que não convenceu um certo Elias Tookey, que continuou a manter e publicar suas visões, de sorte que a igreja de Murton excluiu a ele e alguns aderentes, para preservar paz interna. Assim, a 20 de março, calendário antigo, dezesseis deles escreveram a Amsterdã para obter reconhecimento enquanto uma segunda igreja de Londres. Eles se professaram tolerantes, mas culparam Murton, e também a igreja de Ainsworth em Amsterdã, ‘porque eles não se uniram em uma comunhão real, mas formaram uma nova seita irregularmente de acordo com sua opinião arbitrária, e também porque eles faziam mal uso da disciplina de Cristo, etc.’ […]

A isso, as igrejas Holandesas e Inglesas responderam em Maio, muito cautelosamente, e fazendo diversos questionamentos; estes foram logo respondidos em uma carta datada de 3 de junho. A carta mostra que os londrinos [de Tookey] não concordavam com as duas igrejas de Amsterdã em nenhum dos pontos levantados, exceto que eles não aceitariam nenhuma magistratura nem assumiriam postos armados; mas como era pouco provável que lhes fosse conferido qualquer um dos dois, esta unanimidade era de pouca importância.

O rascunho da resposta a esta [carta] encontra-se em Amsterdã. Uma terceira carta de Londres, hoje desaparecida, demandou uma carta muito longa de Ries, em 3 de dezembro, 1625. Ela lamenta as dissensões, mesmo a secessão de Tookey, e declina comunhão até que haja contentamento a respeito da deidade de Cristo, da impropriedade de realizar juramentos, da recusa a lutar. Tookey e outros dezessete responderam em 17 de março, 1625, no calendário antigo (27 de março, 1626, no calendário novo), e eles falharam distintamente em satisfazer as igrejas de Amsterdã. A correspondência se encerrou e Amsterdã retomou contato com a igreja de Murton.

A History, pp. 46-47.

Whitley aponta a inusitada discordância no âmbito da Cristologia e salienta que a igreja de Tookey, que sobreviveu ao tempo, decidiu em 1916 abraçar abertamente o Unitarismo, isto é, a crença de que apenas Deus-Pai é verdadeiramente Deus único. Muitas outras igrejas batistas gerais tiveram o mesmo fim durante o século XIX, adotando irrestritamente o Unitarismo. Whitley se volta agora para a antiga igreja de Helwys, primeira igreja batista em Londres, agora sob liderança de John Murton.

As negocições de Tookey naturalmente atiçaram a igreja original de Londres. E enquanto Tookey esteve isolado, Murton entrou em contato com quatro outras igrejas ali espalhadas. […]

As cinco igrejas se consultaram conjuntamente durante 1626 e decidiram se comunicar com as igrejas Menonitas sob Ries e Wybrantsz, com as quais a igreja de Londres de Murton já tinha tanto em comum e com a qual a igreja de Smyth agora tinha se aliado. Eles escolheram dois homens que sofreram muito e por muito tempo estiveram na prisão, e os enviaram com uma carta. Em conversação, eles disseram que representavam bem umas cento e cinquenta pessoas, todas do tipo de Murton e Helwys, e não do tipo de Tookey.

Ries estava agora em Alkmaar, mas Wybrantsz conseguiu que um dos membros Ingleses em Amsterdã traduzisse a carta para o Latim, o que foi feito em 12 de novembro, 1626. No dia seguinte, os delegados apresentaram-na à igreja e solicitaram reconhecimento fraternal. A carta dizia que as Cinco Igrejas haviam lido a antiga confissão de Ries e aprovado-a em geral, mas eles desejavam explicações acerca de cinco pontos. [1] Um de seus membros não estava certo sobre se Cristo – que indubitavelmente era, a uma só, Deus e homem – havia adquirido Sua substância de Maria ou não; ele não promovia suas dúvidas; era sábio mantê-lo em comunhão? [2] Os Waterlanders invocavam a Deus para testemunhar suas verdades quando respondendo a um magistrado? Embora, é claro, outros juramentos fossem proibidos nas Escrituras. [3] Os ingleses se recusaram a obrigarem-se a observar a Ceia do Senhor em todo o Dia do Senhor, quando houvesse sérias dificuldades, embora eles realmente a observassem todo Sábado. [4] Eles anuíam que a ministração dos sacramentos estava inseparavelmente ligada à ministração da palavra; mas eles mantinham que embora um homem não fosse admitido ao ‘episcopado’ pela imposição de mãos, ainda assim, enquanto um servo da igreja ele pode pregar, converter, batizar, edificar a igreja e executar outras funções públicas pela autoridade da igreja quando os bispos estivessem ausentes. [5] Finalmente, como os Waterlanders se dobravam diante da autoridade dos magistrados em questões de propriedade, embora não de derramamento de sangue, guerras e armas, os ingleses perguntaram se a diferença neste tópico não era sutil e tolerável. A carta segue arrazoando com os Holandeses e os insta a convir com as visões Inglesas.

Wybrantsz encaminhou a versão em Latim para Ries em Alkmaar, onde foi mais uma vez traduzida para o Holandês, em 18 de novembro. Ele levantou uma dúzia de questões por escrito, às quais os delegados responderam que não havia um ministro integral de cada uma das cinco igrejas, e isso tornava impossível observar a Ceia do Senhor em todos os Dias do Senhor; que eles não tinham certeza sobre se tal observância seria obrigatória se fosse possível, mas eles não viam objeção a ela. Algumas questões não são respondidas, mas Ries colocou o dedo sobre dois pontos fracos quando ele perguntou se o grupo de Murton estaria disposto a ter comunhão com o grupo de Smyth, do qual eles haviam colericamente se rompido, e se eles julgavam um pecado fugir da perseguição e ter dito que todos os Ingleses deveriam voltar à Inglaterra. Isso provou que as brasas da divisão ainda ardiam e que a questão da fuga não era vista igualmente por todos. Este último ponto se provou muito interessante. Entrementes, quatro ministros Holandeses subscreveram uma carta em 15/25 de novembro, lamentando que as diferenças reveladas fossem sérias o bastante para tornar qualquer união formal indesejada, mas regozijando no sentimento fraternal. Uma cópia da carta a Tookey, um ano antes, foi entregue aos delegados para elucidação das visões Menonitas. Com esta recusa cortês de abertura, a correspondência cessou por algum tempo.

Idem, pp. 50-51.

Alguns anos mais tarde, quando as negociações foram reabertas, novos – e velhos – entraves operaram mais uma vez contra a união das igrejas:

Os Menonitas se recusaram especificamente a contrair qualquer união formal com os Ingleses, mas eles estavam prontos a manter relações amistosas. Disso, um exemplo foi dado alguns anos depois, o que levou a nova correspondência de Lincoln e Tiverton, preservadas em Amsterdã. A igreja Anglo-Holandesa ali enviou John Drew (um homem original de Lincoln), portando uma carta às Cinco Igrejas, desejando que eles não fossem apressados em disciplinar qualquer membro, e [fossem] rápidos a restaurar os suspensos. Possivelmente, isso significa que Tookey e seus amigos haviam feito novos esforços de reunião e invocaram as autoridades amistosas da igreja de Amsterdã. Pois enquanto Menno Simons, ele próprio, havia sido extremamente severo em disciplina, os associados não encampariam sua rigidez, e uma divisão ocorreu; a igreja Waterlander foi precisamente o grupo que era leniente, então esta sua carta condiz com suas tradições. A igreja de Lincoln respondeu que a questão era mais importante do que Amsterdã parecia imaginar: este era um caso em que admoestação e repreensão foram ignorados, e não parecia haver alternativa senão a exclusão da Ceia do Senhor. […]

Uma carta semelhante foi devolvida a partir de Tiverton, à qual uma resposta imediata foi despachada em 3/13 de setembro, 1630. Estas não existem mais, mas uma outra resposta ainda foi enviada de Tiverton, a qual também Gryndall traduziu para arquivamento em 5 de junho, 1631. Ela mostra que o ponto em questão era se um membro de uma igreja Batista pode também frequentar uma igreja paroquial [Anglicana] e ouvir sermões ali. Tiverton disse enfaticamente Não, e defendeu suas ações a partir das Escrituras, dizendo que após três admoestações, ele seria excluído. Tiverton, portanto, acusou Amsterdã de ser conivente com o mal e afirmou que se tal frouxidão fosse conhecida [antes], então longe de solicitarem união, seu primeiro dever teria sido julgar e reformar os Menonitas. Isso mostra o quão amplamente a doutrina de Smyth foi assimilada, em que a Igreja Estabelecida era anticristo precisamente porque era estabelecida, um composto de civil e eclesiástico. Uma vez aceito isso, era certamente um pecado ser ensinado por um mestre anticristão. Não havia dúvida sobre uma paróquia aqui e ali, onde um clérigo mau ou inadequado precisava ser suplementado por reuniões privadas; todo o sistema era fundamentalmente mau, e nada além da separação poderia remover a primeira pedra de tropeço. Esta era praticamente a posição de todos os reformadores contra Roma; era exatamente a posição de Barrowe contra o establishment Anglicano.

Tiverton, ademais, reforçou os pontos de Lincoln acerca da magistratura e da guerra. Como nenhumas outras cartas sobrevivessem por sessenta anos, é provável que todas as tentativas de união tivessem agora cessado, cada grupo considerando o outro firmemente alicerçado em posição não escriturística. […] Assim, nenhum registro de novas correspondências é preservado, até que a ascensão de William de Orange aproximou a Inglaterra da Holanda.

Os Anabatistas continentais e os Batistas Ingleses nunca se aproximaram mais um do outro do que é revelado por esses documentos de 1609-1630.

Idem, pp. 53-55.

 

Conclusão

Que se pode extrair dessa relação áspera, porém magnética, que insistentemente beira a consumação mas que se repele repentinamente, para lamento e gozo das partes?

O fato inconteste é que houve, reconhecidamente, de ambas as partes, diferenças suficientes para preservar o muro que separava Batistas e Anabatistas holandeses durante o século XVII. Se fosse possível eleger um só momento da história dos Batistas em que as alegadas relações com os Anabatistas pudessem ser contempladas a olho nu, certamente o momento seria este. Não há qualquer relato de que os Batistas Particulares, a partir da década de 1640, tenham buscado uma união com igrejas Anabatistas. Essa disposição é exclusividade dos Batistas Gerais e se deu logo na segunda geração do movimento.

Entretanto, quando somamos a resultante desses esforços, o desfecho contraria as expectativas históricas vulgares. Não houve união possível entre Batistas e Anabatistas. Por mais que tivessem tentado – e tentaram. Por mais que tivessem dialogado – e dialogaram. Não houve acordo. Não houve convenção, no sentido verbal da palavra. Não houve união. A palavra que marca a relação entre Batistas e Anabatistas no século XVII, portanto, é “não”. É claro que, aqui, estamos lidando somente com os domínios institucionais. Nada disso invalida a teoria do “parentesco espiritual”, na medida em que ideias teológicas anabatistas possam ter influenciado a teologia batista. O que se afirma, neste momento, é que nenhuma proximidade institucional, i.e., eclesiástica, pôde ser consumada.

A surpresa que isso pode provocar em alguns se explica em razão da parca concepção que geralmente se faz de um “Batista” e de um “Anabatista”. Essa concepção é ventilada, via de regra, pelos “Reformados”, e abraçada, num rompante de ignorância, pelos “Batistas”.

Dificilmente se encontrará um “reformado” que aceite reduzir o termo Reformado a “calvinista”, no sentido soteriológico da palavra. Todavia, esse mesmo reformado em nada se peja de reduzir o termo “Batista” e “Anabatista” a um mesmo conjunto de ideais, qual seja, o “batismo de crentes”. O que o episódios das seis igrejas nos mostra é que há muito mais envolvido no ser “Batista” e no ser “Anabatista” do que a questão do batismo de crentes. Esse, aliás, era ponto pacífico, e embora fosse necessário para uma suposta união, evidentemente não era suficiente para tanto. O batismo de crentes era a carta de apresentação, a porta de entrada de uma união entre Batistas e Anabatistas. Mas não era o currículo completo. Não era um convite à sala de estar. Muita coisa carecia ainda de discussão. E o colóquio foi frustrante.

A semelhança aparente entre Batistas e Anabatistas, ancorada apenas na questão do batismo de crentes, encontra um paralelo na aparente similitude entre um Calvinista e um Reformado, escorada somente na questão da soteriologia. Tanto Batistas quanto Anabatistas têm uma identidade de fundo que é derivada de uma reflexão profunda sobre eclesiologia, e não sobre os sacramentos. Assim como existe um “ethos reformado” que em muito extrapola os “cinco pontos do calvinismo”, há um “ethos batista” e um “ethos anabatista” que transborda assaz o tópico sacramental. Divergiam, batistas e anabatistas, a respeito da relação do cristão com o Estado, do papel do cristão ante a espada, das competências dos presbíteros, das incumbências do laicato, da administração da Ceia, do rigor da disciplina eclesiástica. Divergiam, enfim, a ponto de se repelir. Divergiram a ponto de silenciar. Em outras palavras, a suposta identidade entre Batistas e Anabatistas, erigida exclusivamente sobre o sacramento do batismo, é um falso cognato histórico e teológico.

*

UNDERWOOD, A. C. A History of the English Baptists. London: Kingsgate Press, 1947.

WHITLEY, W. T. A History of British Baptists. London: Charles Griffin & Company, 1923.

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