Uma carta das igrejas Menonitas às igrejas Batistas londrinas

Em meu último artigo, analisei a relação entre seis igrejas batistas londrinas e as igrejas Menonitas Waterlanders da Holanda. Encontrei e traduzi a última carta enviada pelos holandeses, liderados por Hans de Ries, às igrejas inglesas. Fica excluída, aqui, como destinatária, a igreja de Elias Tookey, que secessionou da igreja de Murton. A missiva é destinada às cinco igrejas “do tipo Helwys e Murton”, como eles mesmos se identificaram.

*

À irmandade de igrejas, batizadas de acordo com a ordenação de Cristo, que professam e ensinam o batismo de Crentes; residentes em Londres, Lincoln, Sarum, Coventry e Tiverton, na Inglaterra.

Nós, os subscritores, ministros das “Igrejas Unidas de Cristo”, na Holanda, desejamo-vos paz e crescimento na verdadeira sabedoria por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador comum. Amém.

Queridos amigos! Por meio de dois de seus irmãos, nós recebemos com grande prazer uma certa carta que vós endereçastes a nós. Ficamos contentes de conceber vosso desejo Cristão e sincera prontidão em consultar e se unir com nossas igrejas e fraternidade aqui na Holanda. Tomamos isso, em vós, como uma graça especial, e agradecemos o Deus de Amor e Paz por isso, esperando que tal zelo pela honra de Deus não cesse, mas antes conduza ao aperfeiçoamento e edificação entre vós; e também acenda em outras nações um desejo por unificação dos assim chamados Cristãos, e pela diminuição de tantas comunidades denominando-se Cristãs, segundo Cristo.

Nós bem acolhemos os dois queridos amigos, vossos irmãos, que vós enviastes a nós, cuja firmeza e fidelidade à causa de Cristo nós admiramos; razão pela qual, como vós nos informastes, eles sofreram perseguição contínua, prisão longa e dolorosa. Nós os amamos e os honramos, e isto tanto mais por seus diligentes esforços no avanço da unidade Cristã entre vós e nós; por sua coragem também ao se submeterem a tão longa jornada, e isso ainda durante a desagradável estação do inverno. Oramos para que Deus possa recompensar esse ato de boa ação.

Nós examinamos atentamente vossa carta a nós, também discutimos a mesma com ambos os vossos irmãos, cuidadosamente examinando as diferenças no ensino entre vós e nós. Nós achamos estas dificuldades apresentadas para a união tão grandes, que a harmonia, ou unidade entre vós e nós, a qual nós, para a honra de Deus tão ardentemente desejamos, mal pode, se é que pode, acontecer.

Referente aos pontos em discussão mencionados por vós, viz.

1º. Que a Ceia do Senhor deveria ser administrada todo Domingo.
2º. Que qualquer um, não ordenado pela imposição de mãos por um Bispo, pode administrar os Sacramentos.
3º. Que Cristãos podem, através de um juramento, certificar a veracidade de um caso.
4º. Que um Cristão pode ocupar o cargo de um magistrado; punir malfeitores não conforme as leis de Moisés, mas do estado. Usar armas carnais, reprimir tumultos e resistir ou derrotar os inimigos do país com arma, ou em guerras organizadas etc.

Nessas questões, nós tentamos corrigir ou ajustar diferenças existentes entre vós e nós, com os seus mensageiros; mas, para nosso pesar, não conseguimos chegar em um acordo.

Vossos irmãos representantes vos dirão tudo o que foi professado verbalmente; [o que é] muito longo e um tanto difícil de repetir por escrito. Vós recebereis uma declaração completa de vossos mensageiros, os quais, estamos certos, vos apresentarão um relato conciso e correto de tudo o que se passou.

Nós lhes demos, além disso, a cópia de uma carta escrita há algum tempo para Elias Toky, na qual as questões do “Juramento” e do “Ofício do Magistrado” são amplamente discutidas com capítulo e versículo corroborando nosso ensino e visão em ambos os pontos. As ditas cartas podem servir tanto para vos instruir quanto para vos convencer; de forma que a unidade, que nós ardentemente desejamos ver, possa ser nutrida e completada. Pois, sob [as] diferenças existentes, ou convicções instáveis, nossas igrejas não podem ser induzidas a concordar com a união proposta; especialmente acerca dos pontos sobre o uso de armas e sobre a guerra. Nós tivemos, nestes territórios, um gosto da miséria, tristeza e o fardo causados por alguns que portam o nome de “Doopsgezinde” (ditos de persuasão Anabatista), que espalham tais visões perversas, e, à parte disso, nós mantemos firmemente que nas Sagradas Escrituras do Novo Testamento nada foi encontrado em sua defesa, [portanto] nós não poderíamos admiti-lo por mais de uma razão importante.

Em conclusão, nós oramos e rogamos que vós, com os irmãos que nos enviaram, possam entender, e no temor de Deus pesar e comprovar as palavras e conversações que eles tiveram conosco, e nós com eles; pedindo a Deus, o doador de todo o bem e dons perfeitos, pela sabedoria que vem do alto.

Nós suplicamos a vós, buscai o Senhor, para que Ele possa mais e mais vos esclarecer para o bem de Sua honra, para a salvação de todas as almas e a promoção da paz e da concórdia Cristã.

Muito estimados amigos! cujo bem-estar em todas as direções nós ardentemente desejamos, nós desejamos a todos vós a Graça de Deus.
Em Amsterdã, neste 25 de Novembro, Ano 1626.

Assinado

Hans De Ries
Reynier Wybr[ants]
Peeter Andriesz
Cornelis Claesz

*

Como fica evidente, o maior ponto de discordância entre os Menonitas e as igrejas Batistas, naquele momento, dizia respeito ao uso de armas e da violência. No trecho sublinhado, os subscritores fazem notar que muito já padeceu a Holanda (e todo o norte europeu, diga-se) com o uso da violência em nome de ideais religiosos. Eles afirmam que alguns dos que advogam a força portam o nome de Anabatistas e, com isso, enlameiam sua reputação.

Isso mostra que os Menonitas estavam ainda tentando se desvincular do anabatismo Münsterita do século anterior e por isso era crucial que qualquer união eclesiástica tivesse no pacifismo um elemento indiscutível. É arguível, todavia, especialmente em se tratando do contexto pré Guerra Civil na Inglaterra, que quando os batistas falavam sobre a legitimidade do uso da força não estavam aventando atentados contra o governo instituído, e sim em nome do governo instituído. Somente durante a década de 1640 é que se torna comum encontrar um batista com ímpetos monarcômacos. Assim, enquanto para os batistas a defesa da legitimidade da força bélica era apenas isso, um argumento de sua legitimidade, para os Menonitas, ela soava como uma licença para cometer atrocidades, e isso em um momento em que eles careciam de certeza absoluta da disposição pacífica em seus quadros eclesiásticos.

Não deixa de ser notavelmente irônico, portanto, que os Anabatistas Menonitas tenham recusado união com os Batistas, entre outros motivos, por considerá-los excessivamente “anabatistas”, no sentido Münsterita do termo. Por outro lado, os Menonitas, que descendiam de fato dos anabatistas, aproveitam a aproximação dos Batistas para mostrar que se mantêm firmes no propósito de rejeitar o anabatismo violento que tanto escandalizou o continente – e os ingleses. Completa a ironia o fato de que os detratores dos Batistas na Inglaterra, via de regra, os acusavam de serem Anabatistas violentos, seguindo o exemplo dos… Anabatistas holandeses, isto é, dos Menonitas! Dessa forma, esses Batistas foram vistos como radicais, por motivos que concretamente não procedem, tanto por ortodoxos ingleses quanto pelos próprios Menonitas. Ou seja, era um jogo bem difícil esse, no século XVII, de buscar uma “identidade batista”. E foi assim que, com uma ruptura cordial, com uma despedida fraternal, com uma recusa amigável, os Anabatistas disseram aos Batistas do século XVII aquilo que, desde então, os Batistas vêm tentando dizer aos Reformados: não há comunhão entre nós. O que não veta, naturalmente, o caminho do amor fraternal.

*

RIES, Hans de; WYBRANTS, Reyner; ANDRIESZ, Peeter; CLAESZ, Cornelius. Carta às Cinco Igrejas, 1626. Reproduzido em “Letters 1624, 1625 and 1626 to Six English Baptist Churches”. In: Transactions of the Baptist Historical Society, 4.4 (1914), pp. 228-254.

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