Foi John Milton um Batista?

Nor after ressurrection shall he stay
Longer on earth than certain times to appear
To his disciples, men who in his life
Still followed him; to them shall leave in charge
To teach all nations what of him they learned
And his salvation, them who shall believe
Baptizing in the profluent stream, the sign
Of washing them from guilt of sin to life
Pure, and in mind prepared, if so befall,
For death, like that which the redeemer died.

*

Depois de ressurgir não ficará
Na terra mais que um tempo p’ra surgir
Aos discípulos, homens que o seguiram
Em vida; e uma grande comissão
Lhes dará, de ensinarem às nações
A sua salvação. E quem crer nele
Batizarão em cursos de água, símbolo
De pecados lavador, p’ra uma vida
Pura, e preparado no seu espírito
P’ra morrer a morte do redentor.

 

John Milton, Paradise Lost, Livro XII, vv. 436-445.

 

John Milton (1608-1674), como se sabe, foi um dos maiores poetas de língua inglesa do século XVII, autor do célebre épico Paraíso Perdido. Assim como John Bunyan, Milton foi e ainda é envolto em polêmicas e incertezas religiosas. Dois grandes expoentes literários, duas grandes incógnitas teológicas. Christopher Hill, consagrado historiador do século XVII, é da opinião de que

Milton e Bunyan me parecem ser, respectivamente, o maior poeta e o maior prosador da Inglaterra setecentista, embora Milton também tenha sido um grande escritor de prosa e os versos de Bunyan, especialmente seus versos satíricos, são melhores do que geralmente se reconhece.

The English Bible, p. 371.

W. T. Whitley, no apêndice de sua obra A History of British Baptists, referenciado como “Nota C”, intitula a seguinte pergunta: “EM QUE SENTIDO ERA JOHN MILTON UM BATISTA?”. O tópico surge, no livro de Whitley, um tanto fora de curso, com um tempero quase de curiosidade, e por isso mesmo foi lançado nos apêndices. Talvez a questão não ultrapasse a barreira do simples diletantismo, mas não deixa de ser, por isso mesmo, instigante.

Seguem abaixo as palavras do historiador a este respeito. Transcrevo aqui a “Nota C” em sua íntegra. As notas de rodapé são minhas e trazem alguns esclarecimentos e correções importantes. A numeração entre colchetes sinaliza os comentários a serem tecidos posteriormente.

Não há nenhuma tradição de que ele habitualmente cultuava com uma igreja Batista, nenhum diretório exibe seu nome, nenhum ministro reivindicou tê-lo batizado. Isso é igualmente verdade sobre centenas de homens obscuros naqueles tempos, mas com um homem proeminente como Milton, alguma informação se poderia esperar acerca de sua filiação externa.

‘Da minha parte, Eu me fio às Sagradas Escrituras somente – Eu não sigo nenhuma outra heresia ou seita.’ Assim disse ele em seu prefácio à De Doctrina Christiana…Disquisitionum Libri Duo Posthumi. Esta foi, de fato, publicada postumamente, sendo confiscada pelo governo e descoberta só em 1823, quando o rei fez o livro ser editado e traduzido. Há capítulos sobre os sinais Externos da aliança da graça, sobre igrejas Particulares,1 sobre disciplina de Igreja, que tornam sua posição eclesiástica perfeitamente clara; não apenas ele afirma sua visão com sua usual lucidez, mas as defende amplamente contra objeções possíveis e reais. Esses capítulos quase mereceriam reimpressão enquanto modernos tratados Batistas. Aqui estão seus sumários em alguns pontos de disputa.

[A partir daqui, Whitley escreve um parágrafo sem aspas ou referência, mas que se trata de um mosaico de afirmações extraídas da sobredita obra de Milton]

A igreja universal visível é a multidão daqueles que são chamados, de todas as partes do mundo, e que abertamente cultuam Deus o Pai por meio de Cristo em qualquer lugar, seja individualmente ou em conjunto com outros. … [1] Qualquer crente é competente para atuar como um ministro ordinário, segundo as conveniências possam exigir, supondo que ele seja imbuído dos dons necessários; esses dons constituem sua missão. … Também compete a ele administrar o rito do batismo. … Uma igreja particular é uma sociedade de pessoas professando a fé, unidas por um laço especial de irmandade e organizadas para melhor promover os fins da edificação e comunhão mútua dos santos. … [2] O direito de sucessão é nugatório e vazio.2 … No que concerne às pessoas da igreja, apenas devem ser consideradas pertencentes quantas sejam bem instruídas na doutrina das Escrituras e capazes de provar, pela regra das Escrituras e do espírito, qualquer mestre. … [3] Igrejas particulares podem se comunicar umas com as outras em um espírito de fraternidade e concordância, e cooperar por propósitos relacionados ao bem-estar geral. II. Cor. viii. 18, ‘.’3 … Disciplina de igreja consiste em um acordo mútuo entre os membros da igreja para amoldar suas vidas de acordo com a doutrina Cristã. … [4] Esta aliança deve ter lugar, propriamente, no batismo, enquanto sendo o ritual apontado para a admissão de todas as pessoas (isto é, de todos os adultos) na igreja. … [No batismo],4 os corpos dos crentes que se comprometem à pureza de vida são imersos em água corrente [5] para significar sua regeneração pelo Espírito Santo e sua união com Cristo em Sua morte, sepultamento e ressurreição. … Bebês não devem ser batizados, na medida em que são incompetentes para receber instrução, ou crer, ou ingressar em um pacto, ou prometer ou jurar por si mesmos, ou mesmo para ouvir a palavra. … Os sacramentos não podem transmitir salvação ou graça por si mesmos, mas são dados como penhor ou símbolo para crentes de suas bençãos reais.

[Fim das citações de Milton]

Todas essas posições são expostas amplamente com suporte escriturístico, e elas são plenamente Batistas. Seus capítulos sobre os decretos divinos, predestinação, redenção, mostram de quão perto ele atentou para os pontos litigiosos entre Batistas Gerais e Particulares. Mas há um ponto mais fundamental, e nenhum Batista pode se satisfazer com o capítulo sobre o Filho de Deus e sua elaborada posição de visões como ‘O Filho igualmente ensina que os atributos de divindade pertencem ao Pai somente, à exclusão até de si mesmo.’ Isto é o bastante para explicar porque Milton nunca buscou membresia em uma igreja Batista, e talvez porque não publicou [esta obra] ainda em vida. Isso pode nos reconciliar com a supressão de suas visões por 150 anos, pois se tivesse obtido aquela circulação no continente, aonde foram enviadas para serem impressas, o que foi conseguido por suas obras em Latim, elas provavelmente teriam ganhado discípulos, mas estes bem poderiam ter se tornado Unitaristas, como os Menonitas antes; enquanto que os Germânicos que, ainda em vida sua viúva, foram ao mesmo manancial das Escrituras independentemente, formaram as Igrejas dos Irmãos,5 com a visão tradicional da deidade de nosso Senhor.

Poderia ser acrescentado que a terceira esposa de Milton, Elizabeth Minshull, com quem ele se casou em 1662, veio das proximidades de Nantwich, onde havia uma igreja Batista; que ela retornou para lá em sua viuvez e se uniu àquela igreja, mantendo-se em sua comunhão até sua morte, em 1727, quando ela apontou o ministro como seu procurador; um membro de sua família estava no ministério local no século passado. Se, portanto, Milton se absteve de ter parte publicamente com uma igreja Batista, ao menos sua influência doméstica correspondia com suas convicções. Estas eram de intensa lealdade pessoal a Cristo, de profunda responsabilidade e aptidão quando guiados por Ele, [6] o que envolvia absoluta liberdade em todas as outras direções, seja de uma lei Mosaica obsoleta ou um estado moderno, de forma que um homem era responsável à Cristo somente por seus pensamentos, discursos, publicações ou culto. Estas são, essencialmente, doutrinas Batistas.

A History, pp. 369-372.

Por “igreja Particular” deve se entender a igreja local, em oposição à igreja universal. Não se deve confundir o uso do termo maiúsculo com as igrejas Batistas Particulares.

Nugatório: frívolo, vão. 

Houve um equívoco na numeração do versículo, que diz respeito à 2 Cor 8.19, e não v. 18. A versão original de Milton traz como referência o v. 19. O erro pode ter sido de Whitley, de uma versão equivocada da obra de Milton ou, ainda, da própria edição do livro de Whitley.

Original: German Baptist Brethren, também conhecidos como Dunkers e outros nomes locais.

Interpolação de Whitley. 

 

Whitley sugere que Milton estava substancialmente inteirado dos debates correntes entre os Batistas Gerais e Particulares. Vale notar, a este respeito, que o problema da [1] ordenação e [2] da sucessão ministerial era um dos pontos sensíveis no meio batista. Um dos focos de desentendimento entre Smyth e Helwys, por exemplo, resultou da defesa que o primeiro fez de que o batismo dos Menonitas era válido porque contava com uma sucessão de igrejas transmitindo o sacramento, ao passo que seu si-batismo anterior não teria tido validade por se dar no vácuo eclesiástico. Para Helwys, isso era incorrer em um sucessionismo ministerial, como descreve Underwood:

Um outro crítico perguntou a ele [Smyth] por que ele não foi atrás, para seu batismo, de um dos presbíteros dos Anabatistas Holandeses. Essa observação chamou sua atenção para os Menonitas Waterlanders, com os quais ele rapidamente abriu diálogo. Desta vez, Smyth falhou em levar todo seu povo consigo. Ele levou a maioria, mas Thomas Helwys e cerca de dez outros ficaram de fora. Eles tinham sérias hesitações em relação à Cristologia Hoffmannita dos Menonitas, e parecia a eles que Smyth estava pondo em perigo sua posição contra a velha ideia de uma sucessão de ministros, à qual os Menonitas conferiam real importância. Helwys assumiu a visão de que, se apenas presbíteros poderiam batizar, isso equivaleria a voltar atrás na ideia de uma sucessão apostólica. Ele perguntou, “Acaso o Senhor restringiu de tal forma Seu Espírito, Sua Palavra e ordenanças, de sorte a tornar homens particulares senhores sobre elas, ou guardiões delas? Deus o proíba. Isso é contrário à liberdade do Evangelho, que é gratuito para todos os homens em todos os tempos e em todos os lugares. O grupo de Helwys, portanto, excomungou Smyth e se pronunciaram ‘a verdadeira Igreja’.

A History, p. 39.

A frase de Milton sobre a competência de qualquer cristão no exercício do ministério, portanto, só faz sentido em um contexto inglês separatista, eventualmente batista.

Mas o que o separatismo não oferece, e que apenas as igrejas batistas buscavam incessantemente, é [3] a comunhão entre diferentes igrejas autônomas. Como o próprio Whitley esclarece, ao se referir às Cinco Igrejas Batistas Particulares que buscavam comunhão com os Menonitas,

As Cinco Igrejas estavam claramente ansiosas por [manter] relações mútuas, tanto entre elas mesmas quanto com igrejas irmãs na Holanda. As primeiras igrejas da Separação em Norwich, Yarmouth, Middleburg, Londres, Amsterdã, Leiden, raramente pensavam sobre quaisquer problemas quanto a seus relacionamentos e não fizeram qualquer tentativa perseverante para entrar em contato umas com as outras. Elas não se isolavam deliberadamente, mas permaneceram isoladas, e o termo Independente, o que quer que tenha pretendido significar, de fato as descreviam plenamente. Desde o início os Batistas não eram “Independentes”; eles sempre buscaram irmandade entre as diferentes igrejas e foram muito bem sucedidos em planejar uma organização permanente. Nós veremos presentemente que, assim que o afrouxamento da perseguição permitiu não apenas liberdade d ação, mas também da manutenção de registros, as igrejas agruparam-se e providenciaram reuniões regulares. Esta sempre foi uma característica Batista que longamente os distinguiu dos Independentes, embora esses tenham copiado, agora, muitos aspectos da organização Batista.

A History, pp. 52-53.

A afirmação mais intrigante de todas, sem dúvida, é a que afirma [4] que o batismo é o meio pelo qual uma igreja local se pactua. A formação de igrejas a partir de pactos locais é distintamente separatista, e já presente na primeira geração quinhentista dos separatistas ingleses, antes mesmo das aventuras de Robert Browne, como demonstrou B. R. White:

Congregações informais daqueles que compartilhavam tais convicções como essas encontravam-se em muitas e variadas circunstâncias durante o reinado de Maria Tudor. […] Uma outra congregação ainda que pode ter tido uma existência organizada mais formal encontrava-se em Stoke, em Suffolk. Conseguiu, aparentemente, sobreviver a três anos da perseguição Mariana porque seus aderentes nas redondezas eram tão numerosos, especialmente entre as mulheres, que as autoridades locais não eram fortes o bastante para forçá-los a comparecer à missa. Ali, os membros da congregação entraram em aliança uns com os outros, ‘dando suas mãos juntos’ em um acordo para não frequentar os cultos da igreja paroquial [anglicana].

Separatist Tradition, p. 9.

Todavia, que o batismo seja o selo ou o sinal do pacto de uma igreja local autônoma, isso já é um feito – posteriormente abjurado – de John Smyth, como descreveu Whitley:

Entretempos, Smyth não se demorou e em 1609 dissolveu a igreja aliançada da qual tinha sido o cabeça, batizou a si mesmo e então batizou todos os outros. Asim nasceu a primeira Igreja Batista Inglesa cuja história pode ser traçada, da qual um braço exerceu culto em Londres até a última década do século XIX.

A History, p. 21.

É muito pouco provável que Milton pudesse ter feito uma afirmação como essa, caso não tivesse um conhecimento substancial das práticas eclesiásticas batistas do período.

Vale a pena conferir o argumento de Glen H. Stassen acerca da influência das doutrinas Menonitas sobre os Batistas Particulares, pois ali Stassen sublinhou a visão distintiva sobre o significado do batismo enquanto [5] “união com Cristo em Sua morte, sepultamento e ressurreição”. É provável que Milton tivesse conhecimento da obra e das doutrinas de Menno Simons, mas é igualmente, ou ainda mais, crível que sua visão sacramental pudesse ter derivado das práticas e dos escritos Batistas Particulares.

Por fim, é preciso reconhecer que a ideia [6] de uma liberdade absoluta dos homens para além de qualquer coisa que não fosse Cristo, caracteriza muito mais o anabatismo negado do que esposado pelos primeiros Batistas. É natural que o ideal de liberdade seja constantemente celebrado pelos batistas, já que é, de fato, um importante legado histórico. Não se deve a presbiterianos ou anglicanos o fundamento da separação entre Igreja e Estado. Em alguns casos, nem mesmo às igrejas da Separação. Os Batistas representam, realmente, o primeiro movimento teológico sólido em favor da liberdade e autonomia plenas da igreja. Mas nada disso é um bom motivo para retratar os batistas como revolucionários teológicos com uma Bíblia na mão e uma ideia na cabeça. Tanto os Batistas Gerais quanto os Particulares sempre se submeteram a mecanismos restritivos: confissões de fé, pactos eclesiásticos, associações, presbitérios locais e disciplina eclesiástica.

Podemos, assim, responder à pergunta de Whitley: “EM QUE SENTIDO ERA JOHN MILTON UM BATISTA”? No sentido em que conhecia de perto, muito provavelmente por experiência própria, o vocabulário, os debates e os fundamentos da fé batista, sendo que comungava abertamente de algumas de suas ideias. Agora, a pergunta que Whitley não fez, e que também exige de nós uma resposta, é: EM QUE SENTIDO NÃO ERA JOHN MILTON UM BATISTA? E a resposta é: no sentido em que era um Anabatista.

*

HILL, Christopher. The English Bible and the Seventeenth-Century Revolution. Penguin Books, 1995.

MILTON, John. Paraíso perdido. Edição bilíngue; tradução, posfácio e notas de Daniel Jonas; apresentação de Harold Bloom; ilustrações de Gustave Doré. São Paulo: Editora 34, 2016.

UNDERWOOD, A. C. A History of the English Baptists. London: Kingsgate Press, 1947.

WHITE, B. R. The English Separatist Tradition: From the Marian Martyrs to the Pilgrim Fathers. Oxford University Press, 1971.

WHITLEY, W. T. A History of British Baptists. London: Charles Griffin & Company, 1923.

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