John Tombes: Biografia e Breve Catecismo Sobre Batismo (I)

Há um episódio não contado da história da Assembleia de Westminster, em particular, e do Puritanismo, em geral. É sobre um acadêmico e pastor Puritano chamado John Tombes.

Michael T. Renihan, The Antipaedobaptism of John Tombes, p. 127.

*

Nem sempre foi fácil identificar um batista. No século XVII, a dinâmica religiosa frequentemente desafia nossas taxonomias. Comumente se afirma que, durante o século XVII, havia dois grupos distintos de Batistas: os Gerais, que desposavam uma teologia arminiana, e os Particulares, que abraçavam uma soteriologia calvinista. Mas a história é mais complexa que isso, como nos lembra Robert Torbet:

Havia quatro grupos de Batistas na Inglaterra durante o século XVII: os Batistas Gerais, com sua ênfase Arminiana na teologia, os Batistas Particulares, que defendiam um Calvinismo estrito, os Batistas do Sétimo Dia, que eram recrutados amplamente dos homens desapontados com o [movimento] da Quinta Monarquia, e uma seção cruzada de Batistas Gerais e Particulares que confraternizavam com os Independentes (Congregacionais pedobatistas) e mantinham uma elevada vida social e cultura.

A History, p. 54.

Mas existe ainda um quinto grupo que alguns se arriscariam a chamar de Batistas ou, pelo menos, de elencá-los como simpatizantes da causa. Esse grupo era composto por homens (e mulheres) que, apesar de suas convicções sacramentais credobatistas, permaneciam ligados à igreja oficial (anglicana ou presbiteriana, a depender da época) e ansiavam uma reforma sacramental do interior da igreja nacional. Em outras palavras, não eram separatistas, não eram independentes nem congregacionais. O caso peculiar de John Tombes é um desses. Nos próximos artigos, pretendo oferecer uma breve biografia intelectual e teológica de Tombes, extraída, via de regra, da síntese de Michael T. Renihan, e anexar, ao final de cada artigo, algumas seções da obra Um Breve Catecismo Sobre Batismo, publicado em 1659.

 

“Lá e de volta outra vez”: De Bewdley [à Oxford à Bristol à Londres] à Bewdley

Sigamos de perto a narrativa de Michael Renihan:

John Tombes nasceu em Bewdley, Worcestershire, Inglaterra, próximo ou no ano de 1603. Não se sabe muito sobre seus primeiros anos, senão a presunção de que uma educação apropriada em uma escola de gramática fundamental era indicada para uma criança que eventualmente entraria nos salões da Universidade de Oxford aos quinze anos. Tal educação era incomum e custosa. Era procurada para crianças promissoras.

Tombes se matriculou no Magdelan Hall, Universidade de Oxford, em 1618. Nos típicos três anos, completou o Bacharelado em Artes (1621). Ele continuou como estudante sob [os cuidados de] William Pemble, o bem-respeitado Puritano. Tombes completou o Mestrado em Artes em 1624. Quando da morte de seu tutor naquele ano, Tombes sucedeu Pemble enquanto Palestrante Catequético no Magdelan Hall. Tombes tinha apenas vinte anos de idade na sucessão. Enquanto lecionava no Magdelan Hall, ele cursou uma graduação de Bacharelado em Divindade. Completou-a em 1631. Este era um processo de sete anos para assegurar a alguém a maestria nas coisas divinas. Era um período repleto de aulas assistidas e ministradas, disputas e debates, com uma vida centrada no coração da universidade.

Entre os anos 1624 e 1630, Tombes lecionou em St. Martin Carfax, uma igreja cuja torre ainda está em pé como atração turística no centro de Oxford. Em novembro de 1630, ele foi feito vicário de Leominster, Herefordshire. Reportou-se que sua pregação em “Lemster” era popular entre os paroquianos. No ano seguinte ele se casou com Mary Scudder, filha de Henry Scudder, o admirado autor de A Christian’s Daily Walk.1 “Padre” Scudder apresentaria, mais tarde, os pensamentos de Tombes sobre o batismo a um comitê que estudava os sacramentos na Assembleia de Westminster.

Em 1641, Tombes deixou Leominster rumo a Bristol, na medida em que as forças Realistas o impeliram a sair. Bristol esteve sob o controle dos simpatizantes parlamentares até aquele momento. Em Bristol, Tombes recebeu proventos ou apoio da Paróquia de Todos os Santos. Naquela cidade, ele também teve debates públicos com um “habilidoso batista”, cujos argumentos e modos o converteram às visões antipedobatistas.2 Entretanto, “Devido à violência do Partido do Rei” em Bristol e à recomendação de seu “Fisicista”,3 Tombes rumou para Londres em 1642. Ele sabia bem que a Assembleia de Westminster estava prestes a se reunir. Ele desejava esclarecer a questão do batismo de uma vez por todas. Ele planejou consultar bibliotecas e acadêmicos, livros empoeirados e teólogos catedráticos.

Depois de sua chegada em Londres, Tombes foi alojado em Fenchurch, próximo à Torre de Londres. Os paroquianos, cientes de suas visões antipedobatistas, recusaram-se a ouvi-lo pregar. Tombes procurou uma outra posição por meio de John White, presidente de um comitê que lidava com os “ministros pilhados”daquele período.

Depois de alguma controvérsia com White e Stephen Marshall, Tombes foi alocado como Mestre da Temple Church, em 1643, embora uma placa recente no prédio nomeie Tombes como apenas um “Pregador da República”. Logo ele foi dispensado deste posto, depois de publicar um tratado contra o batismo infantil em resposta ao ataque de Stephen Marshall.

Tombes retornou a Bewdley, onde, enquanto sacerdote em uma Chapel-at-ease,5 ele não tinha que batizar bebês. Enquanto servia naquela Paróquia, ele agremiou uma comunidade informal de crentes batizados da vizinhança para edificação mútua. Em 1646, ele foi feito reitor de Ross e curador perpétuo de Bewdley, para somar à sua capacidade de sustentar a si e sua família. Em termos eclesiásticos, isso fez de Tombes um pluralista – múltiplas paróquias provendo sua renda.

The Antipaedobaptism, pp. 127-129.

Célebre livro sobre espiritualidade cristã cotidiana e que funcionou muitas vezes como devocional. Publicado em 1627 e com diversas reedições posteriores. 

Tombes designava-se a si mesmo e suas ideias como “antipedobatistas”. Ele não se dizia um anabatista, mas também não concordava com a eclesiologia Batista sctrictu sensu, ou seja, na medida em que era congregacional. A melhor maneira que encontrou de se descrever foi “antipedobatista”. O termo acabou ganhando corrência, a despeito das críticas de Thomas Crosby, um século mais tarde, e uma importante obra do século XIX, escrita por A. H. Newman (vide Bibliografia) empregou o termo em seu título. 

“Physitian”, no original, uma corruptela de “physician”, isto é, médico. 

“Plundered Ministers” foi um nome atribuído aos sacerdotes de paróquia que eram acusados de defender ideias dissonantes da igreja oficial (presbiteriana) e que, por isso mesmo, tinham seus bens confiscados (pilhados). O comitê que analisava as acusações desses sacerdotes foi estabelecido em 1643, ainda durante a Guerra Civil. 

Tradicionalmente, “Chapel-of-ease”. A tradução seria algo como “Capela de paz”. Tratava-se de uma capela construída nos limites e jurisdição de uma paróquia, e servia para atender àqueles que não podiam se deslocar até a igreja paroquial propriamente dita. O responsável por essa capela atuava apenas como um capelão, o que significa que não era necessário administrar os sacramentos. Era muito comum que batistas de todos os matizes procurassem cargos em capelas diversas durante o século XVII para terem uma fonte de sustento sem precisar comprometer seus ideais acerca do batismo.

 

Um Breve Catecismo Sobre Batismo (1659)

A presente obra de John Tombes foi escrita em meio a inúmeros debates, concernentes ao tópico do batismo, que começaram a ser travados a partir de 1641, como veremos adiante. Diversos catecismos pedobatistas sobre o tema haviam sido elaborados ou estavam em fase de conclusão, mas o catecismo de Tombes é o único do período, ao que me consta, que apresenta uma visão “batista” (ou antipedobatista). O texto de Tombes responde, de alguma maneira, aos escritos de Daniel Evance, Um Catecismo Batismal, mostrando a quais Pessoas, seja em idade madura, ou ainda Infantes, O Sacramento do Batismo deve ser administrado segundo as Escrituras, de 1655; de Simon Ford, Um Breve Catecismo Declarando o Uso Prático da Parte Aliançada, e Batismo da Semente Infante de Crentes, de 1657, e a outras obras ainda.

*

Tombes - Short Catechism


Ao Leitor Cristão

Muitas são as coisas, nestes tempos, atribuídas aos Antipedobatistas em sua doutrina e prática, que se comprovaram, por muitos longos Tratados existentes, serem injustamente imputadas a eles. Para um entendimento mais simples da verdade do que pela leitura de longos tratados é que este Compêndio, em forma de um Catecismo, é redigido e publicado nestes dias – em que outros, de diferentes juízos, pensaram ser adequado declarar a sua maneira ao Mundo; o que não é feito porque este ponto do Batismo é considerado o único ou principal ponto de nossa Religião, mas porque as discordâncias em outras coisas são ou pequenas, ou devido a pessoas particulares (cuja causa deve ser separada daquela que é comumente defendida) e, portanto, não requer uma confissão ou declaração distinta daquela que é publicada por outros. O intuito de seu Redator é a manifestação da verdade, na qual ele se regozija, e deseja que vós também vos regozijeis com ele. Sua motivação é aquela do Apóstolo, Fp. 3. 15,16. Todos quantos já somos perfeitos, sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará. Mas, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo.

Adeus

Um breve Catecismo sobre Batismo

Perg. 1. É o Batismo com água uma Ordenança de Cristo, a ser continuada por seus discípulos até o fim do Mundo?

Resp. O Batismo com água é uma ordenança de Cristo que deve ser continuada por seus Discípulos até o fim do Mundo; como aparenta por sua ordem, Mt. 28. 19, 20. Mc 16. 15, 16. devendo ser acompanhada da pregação do Evangelho e do fazer Discípulos pela pregação, e do ensiná-los a observar tudo o que Cristo ordena, e assim ser continuada enquanto estas hão de continuar, o que é provado ser até o fim do mundo pela promessa de Cristo de estar com eles até então, o que seria vão se as coisas apontadas não devessem ser feitas até lá.

 

Perg. 2. O fim do mundo não é, exatamente, o fim daquela era?

Resp. Parece que Mateus quer dizer, pelo fim do mundo, os últimos tempos, ou dia, em que haverá a separação do bom e mau, um para ser queimado com fogo e o outro para brilhar como o Sol, já que nos lugares em que Mateus usa essa precisa forma de discurso (a saber, συντελείᾳ τοῦ αἰῶνος Mt. 13. 39, 40, 49. Mt. 24. 3.) ele não pode ser interpretado significando outra coisa qualquer.

 

Perg. 3. O Batizar, em Mt 28.19. Marcos 16.16, não pode ser entendido como algum outro Batismo que não aquele de água?

Resp. O Batismo, ali, deve necessariamente ser entendido como Batismo por água, já que o Batizar, toda vez que é realizado, seja ato feito ou por fazer de João Batista ou dos Discípulos, denota o Batizar com água, como aparece em João 4. 1, 2. e em muitos outros lugares; e os Apóstolos, por sua prática e ordem (Atos 2. 38. 41. Atos 8. 12. 13. 38. Atos 10. 47, 48. mostram que eles assim entenderam a indicação de Cristo, Mt. 28. 19. Marcos 16.16.

 

Perg. 4. Não pode ser entendido como Batismo pelo Espírito, ou aflições?

Resp. Não pode ser assim entendido, já que o Batizar com o Espírito não é atribuído, em nenhum lugar, a nenhum outro que não Cristo, Mt. 3. 11. Lucas 3. 16. Nem é o Batismo com o Espírito uma obrigação para nós cumprirmos, mas uma livre dádiva do Espírito, incomum a todos os Discípulos de Cristo, mas peculiar a alguns; e sinalizar neles [sic] o batismo por aflições teria sido fazer dos Apóstolos perseguidores.

 

Perg. 5. Por que Paulo, então, diz [que] Cristo não o enviou para Batizar? 1 Cor. 1. 16.

Resp. Não porque ele não tivesse sido nomeado absolutamente para Batizar, pois se fosse assim, ele não teria Batizado aqueles que ele Batizou, 1 Cor. 1. 14.16. etc., mas porque [batizar] não era a principal coisa que ele deveria fazer, como quando é dito que o lavar com águas não salva 1 Pe. 3. 21, por não ser o único ou principal meio de salvação.

 

Perg. 6. Qual é o Batizar apontado por Jesus Cristo?

Resp. O Batizar apontado por Jesus Cristo é o mergulhar de todo o corpo em água, no nome do Pai, Filho e Espírito Santo, como é manifesto pelo termo Batizar e a prática de entrar e emergir da água, Mt. 3. 16. Atos 8. 38,39. o uso de muita água, João 3. 23. A semelhança, pelo Batismo praticado, ao sepultamento e ressurreição de Cristo, Rm. 6. 4. Col. 2. 12. e os testemunhos dos antigos das primeiras eras.

 

Perg. 7. A aspersão ou efusão de água sobre o rosto não pode ser o Batismo de Cristo?

Resp. Nem as Escrituras, nem qualquer Autor antigo, chamam de Batismo o aspergir ou efundir água sobre a face, tampouco qualquer uso nos tempos primitivos o suportam, e, portanto, tais aspersões ou efusões de água não são o Batismo que Cristo apontou.

 

Perg. 8. O que significa Batizar no nome do Pai, Filho e Espírito Santo?

Resp. Não é Batizar somente pela nomeação daquelas pessoas, mas na profissão do Pai, Filho e Espírito Santo, como nosso Mestre ou Professor, como se vê pelas palavras de Paulo, 1 Cor. 1. 13. que mostra que, se os Coríntios tivessem sido Batizados no nome de Paulo, eles o teriam professado como seu Mestre.

 

Perg. 9. São corretamente Batizados, aqueles Batizados no nome de Jesus Cristo, embora nenhuma outra pessoa seja nomeada?

Resp. Eles são, sendo o mesmo Batizar no nome de Jesus Cristo e Batizar no nome do Pai, Filho e Espírito Santo, como se vê pelo preceito, Atos 2. 38. e prática Atos 10. 48. Atos 19. 5. embora a pronúncia de cada pessoa seja conveniente.

 

Perg. 10. As pessoas a serem Batizadas são completamente passivas em seu Batismo?

Resp. Não; Pois o Batismo é sua obrigação, exigida deles tanto quanto do Batizante, Atos 2. 38. e Paulo é ordenado a se levantar e ser Batizado, e lavar os seus pecados, clamando no nome do Senhor, Atos 22. 16.

(…)

 

*

RENIHAN, Michael T. The Antipaedobaptism of John Tombes. In: BARCELLOS, Richard (ed.). Recovering a Covenantal Heritage: Essays in Baptist Covenant Theology. Palmdale: RBAP, 2014.

TOMBES, John. A Short Catechism About Baptism. Londres, 1659.

TORBET, Robert G. A History of the Baptists. The Judson Press, 1963.

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