O Catabatismo e a desqualificação dos imersionistas

A propaganda religiosa via flauteio sempre foi prática comum, mesmo entre os homens mais pios. Os Batistas e Anabatistas foram, como se sabe, pára-raios do escárnio reformado durante pelo menos um século. O trecho a seguir é um excerto da obra de William Whitsitt, A Question in Baptist History, e sugere uma forma de ataque frequentemente ignorada pelos historiadores.

Costumava-se dizer que a palavra Katabatista [sic], tão frequentemente aplicada aos Anabatistas por seus oponentes durante o período da Reforma, continha prova indisputável de que eles eram imersionistas. A preposição kata, em seu uso primário ou local, significa baixo, e assim, argumentava-se, um Katabatista deve ter sido alguém que batizou para baixo, isto é, imergindo. Mas assim como ana, significando primariamente cima, veio a ser usado no sentido de novamente, assim também kata, em diversos termos técnicos, significa contra, e o Prof. Scheffer mostrou plenamente que no uso de autores contemporâneos, este era o significado na palavra aqui considerada, e que Zwingli e outros, ao designá-los Katabatistas, queriam dizer apenas que eles eram “contra” o batismo comumente aceito. Assim, as mesmas pessoas eram chamadas Anabatistas, ou Rebatizadores, porque eles batizavam sob profissão de fé aqueles que haviam sido cristianizados na infância,¹ e Katabatistas, ou oponentes do batismo infantil. [Entretanto,] enquanto a maior parte dos crentes Anabatistas praticavam afusão ou aspersão para batizar, havia algumas exceções a favor da imersão.

(A Question, pp. 37-38; sublinhado: itálico original)

¹ A expressão “cristianizados” era comumente usada, em virtude de seu caráter iniciático, como sinônimo de “batizado”. “Infância”, aqui, é uma referência a recém-nascidos.

A fonte de Whitsitt é o breve ensaio de J. G. de Hoop Scheffer, Overzicht der Geschiedenis van den Doop bij Onderdompeling, texto nunca traduzido e vitimado pelo oblívio. Se de Hoop Scheffer e Whitsitt têm razão, o termo catabatista pode ter tido um importante uso enquanto arma de desqualificação do movimento imersionista. Tradicionalmente, a palavra se refere a certos grupos que rejeitam um determinado tipo de batismo por razões específicas. Os donatistas, por exemplo, foram chamados de catabatistas por se oporem ao batismo da igreja oficial romana, e o fizeram por duvidar da legitimidade espiritual e institucional de seus sacerdotes para a ministração do sacramento.

Mas além disso, porque a palavra catabatista pode assumir um significado que insinua, de longe, o batismo por imersão, os imersionistas ficavam vulneráveis, com uma só palavra, a esta dupla denúncia: rejeição do verdadeiro batismo (infantil) e adoção de um (espúrio, místico e sectarista) batismo imersivo. Para um pedobatista renhido do século XVII, portanto, seria muito fácil e muito oportuno acusar um batista de catabatismo. O credobatismo imersionista esteve presente nos movimentos anabatistas do século XVI, embora não tenha sido uma regra universal. Ao se oporem ao batismo infantil, estavam sujeitos à acusação, da qual de fato foram alvos, de catabatistas.

A fala de John Clarke é reveladora de como o termo “catabatista” foi empregado na desqualificação dos batistas até mesmo no Novo Mundo:

Em nosso exame, o Governador nos acusou com o nome de Anabatistas, ao qual eu respondi: Eu rejeito o nome, eu não sou nem um Anabatista, nem um Pedobatista, nem um Catabatista; ele me disse, apressadamente, que eu era todos.

Ill News, p.5

Dentre os muitos que fizeram uso do termo “catabatista”, em seu sentido pejorativo, estava João Calvino, cujos escritos foram motivados, em grande parte, pela crítica ao anabatismo:

Ademais, se nós corretamente determinamos que um sacramento não deve ser estimado pela mão daquele que o administra, mas deve ser recebido como das mãos do próprio Deus, de quem ele indubitavelmente procede, podemos disso inferir que sua dignidade nem ganha, nem perde, devido ao admnistrador. E, assim como entre os homens, quando uma carta é enviada, se a mão e o selo são reconhecidos, não é da menor importância quem ou o que foi o mensageiro; assim deve ser suficiente para nós reconhecer a mão e o selo de nosso Senhor em seus sacramentos, seja o administrador quem for. Isso confuta o erro dos Donatistas, que mediam a eficácia e valor do sacramento pela dignidade do ministro. Assim são, no tempo presente, nossos Catabatistas, que negam que somos devidamente batizados porque fomos batizados no Papado, por homens ímpios e idólatras; daí que eles insistam furiosamente no anabatismo.

Institutes, IV, 15, 16, pp. 865-866.

Note-se que: a) Calvino associa o Donatismo ao Catabatismo ao Anabatismo; b) ou Calvino ignora que, desde o início, os anabatistas se opunham ao batismo infantil por motivos bíblicos, e não eclesiológicos, e que defendiam o “rebatismo” em razão do imperativo da profissão de fé, ou Calvino refere-se aqui a um grupo muito particular de anabatistas que rejeitariam o batismo infantil somente por ter sido administrado sob a égide de Roma; c) um século mais tarde, os Batistas ingleses usariam um argumento semelhante ao de Calvino, em seu debate contra calvinistas pedobatistas, para defender a imersão: considerando que o batismo não depende de quem o administra, não há nenhuma exigência de que aquele que batiza por imersão tenha sido previamente batizado também por imersão.

Em tudo isso, é curioso este cenário pitoresco em que os imersionistas, com destaque para os batistas do século XVII, defendendo a pureza e a plenitude do batismo,  a restauração da ordenança bíblica e de seu significado, tenham sido classificados justamente como anti-batistas.

*

CALVIN, John. Institutes of the Christian Religion (trad. Henry Beveridge). Hendrickson Publisher, 2008.

CLARKE, John. Ill News from New England, or A Narrative of New-Englands Persecution. Londres, 1652.

SCHEFFER, J. G. de Hoop. Overzicht der Geschiedenis van den Doop bij Onderdompeling. Amsterdã, 1882.

WHITSITT, William Heth. A Question in Baptist History. Louisville, 1896.

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