“Crentes não são Abraãos”: John Spilsbery e Nehemiah Coxe sobre o problema dos “filhos da aliança”.

O argumento, em uma casca de noz, é simplesmente este: Deus estabeleceu sua igreja nos tempos de Abraão e colocou as crianças nela. Elas devem permanecer ali até ele as tirar.

B. B. Warfield, The Polemics of Infant Baptism, in: Studies in Theology, vol. 9, p. 408.

*

Os “Filhos da Aliança”

O entendimento pedobatista acerca do batismo de filhos de crentes passa, necessariamente, pela defesa do conceito de “filhos da aliança”. O conceito carrega a ideia de que os filhos de cristãos participariam, de alguma forma, em virtude da relação pactual de seus pais, da nova administração da aliança da graça, tal como os filhos dos hebreus participavam da velha administração da aliança da graça em virtude da relação pactual de seus pais. Calvino assim o coloca, por exemplo, entre afirmações e indagações:

Se a razão há de ser ouvida, se verá indubitavelmente que o batismo é apropriadamente administrado aos bebês como algo devido a eles. O Senhor não outorgou a circuncisão sobre eles, antigamente, sem fazer deles partícipes de todas as coisas significadas pela circuncisão. Ele teria iludido seu povo com simples impostura, se os tivesse aquietado com símbolos falaciosos: essa ideia mesma é escandalosa. Ele distintamente declara que a circuncisão do bebê lhe será no lugar de um selo da promessa da aliança. Mas se a aliança permanece firme e fixa, ela não é menos aplicável aos filhos de Cristãos no tempo presente do que aos filhos de Judeus debaixo do Antigo Testamento.

Institutas, IV, 16, 5.

O Catecismo Maior de Westminster o apresenta como se segue.

166. A quem deve ser administrado o Batismo? 
O Batismo não deve ser administrado aos que estão fora da Igreja visível, e assim estranhos aos pactos da promessa, enquanto não professarem a sua fé em Cristo e obediência a Ele; porém as crianças, cujos pais, ou um só deles, professarem fé em Cristo e obediência a ele, estão, quanto a isto, dentro do pacto e devem se batizadas.

Gn 17:7-9; Lc 18:16;  At 2:38,39,41; I Co 7:14; Rm 11:16; Cl 1:11,12; Gl 3:17,18,29.

Referenciam-se aqui as duas passagens bíblicas clássicas que, conjugadas, acredita-se, suportariam o argumento em prol do batismo infantil: Gn 17:7-9 & At 2:38-39. Coadunados, esses textos transportariam as promessas e os beneficiários da aliança abraâmica diretamente ao novo testamento, de sorte que, assim como os descendentes naturais de Abraão foram alvos das promessas de Deus, assim também os descendentes naturais dos filhos de crentes também o seriam. É dessa forma que os pedobatistas argumentam que a nova aliança inclui, também, os filhos naturais daqueles pactuados.

 

Uma falácia (teo)lógica

Mas essa relação não é tão óbvia quanto parece. Afinal de contas, com qual fundamento se deve transpor a relação da aliança que Deus firmou com Abraão, que é um cabeça federal, para a relação da aliança com os pais de crentes, que não são cabeças federais? O paralelo teológico adequado deveria ser: tal como a descendência de Abraão recebeu o sinal da aliança e todos os seus benefícios, assim também a descendência de Cristo deve receber o sinal da aliança e todos os seus benefícios. Há, portanto, uma confusão substancial entre cabeças e descendências que só faz algum sentido quando se presume, de antemão, que os cristãos estão debaixo da mesma aliança que os judeus, sendo o cabeça federal, nesses termos, o mesmo.

Brandon Adams demonstrou – e tomo aqui a liberdade de importar algumas de suas citações – que o pensamento reformado ortodoxo, em fins do século XVI e início do XVII, também enfrentou esse essa questão, ainda que revestida em outra roupagem. Como o presbiterianismo escocês e inglês nasceu promiscuamente atrelado ao estado e à ideia de uma igreja nacional, o paralelo Israel-Inglaterra, ou Israel-Escócia, era um locus comum nas pregações públicas do período. Isso levou puritanos como Samuel Rutherford a argumentar que o batismo de bebês não tem por base a fé de seus pais, mas sim a relação pactual abraâmica das crianças:

Portanto, nada mais era exigido dos circuncidados, senão que fossem descendência de Abraão segundo a carne, e, por essa mesma razão, nada mais é exigido de bebês, para que se possam ser batizados, senão que eles tenham nascido na igreja Cristã […] Mas se Deus é Deus da descendência adjacente e remota de Abraão, até muitas gerações, a impiedade dos pais adjacentes não pode quebrar a aliança, como é claro […] Estes devem receber o selo da aliança cujos antepassados estão, por profissão externa, dentro da aliança. Pois Deus não ordena a Abraão que circuncide apenas seus filhos, mas a todos os pais descendentes de Abraão que circuncidem sua descendência: a descendência de Abraão descendeu carnalmente a todas as gerações […] Desejamos saber: a quem, que descendera carnalmente de Abraão, Deus proibiu de ser circuncidado? Ou mostrem-nos exemplos ou preceitos disso na Palavra.

Mas eles dizem: bêbados, assassinos, feiticeiros, juradores e ateístas ignorantes, tanto pais quanto mães, cujos filhos vocês batizam, não professam a fé, pois em obras eles negam e desmentem sua profissão.

Resposta: 1. Então vocês não terão batizadas as crianças de ninguém, senão daqueles cujos pais são firmes e sinceros professos no julgamento da caridade. Mas então Josué, que circuncidou as crianças de todos os que professaram serem, eles mesmos, filhos carnais de Abraão, falhou, embora Josué soubesse e fosse uma testemunha de que seus pais de fato negaram e desmentiram sua profissão

On the Baptism of the Children of Adherents

Segundo Rutherford, portanto, o batismo de filhos de descrentes é legítimo, tanto quanto a circuncisão de filhos de ímpios. Isso porque o fundamento da circuncisão, assim como o do batismo, não é a fidelidade de seus pais imediatos, mas sim a descendência natural de Abraão.

 

Nehemiah Coxe e John Spilsbery: A resposta Batista

Rutherford, no trecho acima, faz exatamente a transposição equivocada da descendência de Abraão para a descendência dos crentes. O tópico não passou despercebido pelos batistas particulares do século XVII. Nehemiah Coxe, endereçando a questão em sua obra A Discourse of the Covenantes That God made with Men before the Law (1681), afirmou que

As promessas previamente dadas a Abraão para sua descendência natural compreende aqueles em gerações remotas, tanto quanto aqueles que imediatamente descenderam dele. E, em certos aspectos, elas foram mais plenamente realizadas naqueles do que nestes […]. Não foi a semente imediata de Abraão, mas a mediada, que se tornou tão numerosa quanto a areia da praia e tomou posse da terra onde flui leite e mel […].

O direito da geração mais remota derivou de Abraão e da aliança feita com ele, tanto quanto o de sua descendência imediata, e não dependeu em nada da fidelidade de seus pais imediatos. Assim, a descendência imediata daqueles Israelitas que pereceram no deserto, sob o descontentamento de Deus, deveria herdar a terra de Canaã em virtude desta aliança com Abraão. Eles nunca poderiam tê-la desfrutado em virtude da fidelidade de seus pais imediatos na aliança […].

A Discourse, pp. 103, 118.

O que Coxe está dizendo é que a descendência mais remota de Abraão –  seus filhos mais distantes – não derivavam seu direito de pertencimento à Aliança Abraâmica em virtude da fé de seus pais, da sua fidelidade a Deus ou mesmo do pertencimento pactual per se. Antes, o fundamento do direito de pertencimento à aliança e ao gozo das promessas era sua ligação com Abraão, e não com seus pais imediatos. Do contrário, os hebreus jamais teriam desfrutado das promessas de Deus (como a terra de Canaã), uma vez que o pacto foi quebrado durante sua peregrinação pelo deserto. Em outras palavras, o ser judeu, o pertencer à aliança e ser herdeiro das promessas, nunca teve por fundamento a fidelidade ou o status pactual dos pais da criança a ser incorporada à comunidade aliançada. O fundamento dessa incorporação deveria ser buscado, sempre, em sua descendência de Abraão. É evidente que a criança circuncidada ao oitavo dia seria inevitavelmente filha de judeus, mas não era em virtude da filiação imediata a seus pais que a criança recebia o sinal da aliança, e sim em virtude da filiação remota à Abraão.

John Spilsbery, em sua obra A Treatise Concerning the Lawfull Subject of Baptism (1642), abordou a questão de maneira um tanto inusitada.

E ademais, considerem o seguinte; primeiro, que nenhum crente pode agora estar para sua descendência como Abraão, antigamente, esteve para a sua descendência, a menos que ele assuma o lugar de Abraão, e também sua paternidade sobre todos os crentes. Mas caso qualquer crente presuma a tal ponto de assumir o lugar de Abraão, e a paternidade sobre ele, nenhum outro poderá fazê-lo. A menos que façamos muitos Abraãos, e portanto todos pais, e nenhum filho.

Obj[eção]. E se for dito que todo crente, em sua própria família, é um Abraão,

Resp[osta]. Se for assim, então o mesmo é válido para seus servos, bem como para seus filhos, pois assim foi com Abraão.

Obj[eção]. Mas alguns dirão que um crente é um Abraão somente em sua descendência pessoal, como foi Abraão.

Resp[osta]. Então um crente teria um privilégio muito maior agora do que Abraão jamais teve; pois a Aliança não foi fundada sobre a semente pessoal de Abraão, pois se tivesse sido assim, então os privilégios dela teria alcançado toda a descendência pessoal de Abraão, assim como a Isaque. Mas não é assim, pois Abraão gerou muitos filhos de seu próprio corpo além de Isaque, que não partilharam com ele nem da aliança, nem de seus privilégios; como em Gn 25:1-6. Assim também é com a descendência dos crentes, para os quais a aliança não repousa, de nenhuma forma, sobre uma descendência particular, mas sim conjuntamente consideradas como um corpo, e portanto a Igreja de Cristo, e sua descendência, semente ou filhos, como anteriormente dito, quando considerada, são a geração dos justos, sucedendo-os na fé, não na carne. E essa é a descendência que Deus tão altamente exalta nas Escrituras, e para quem promete tantas bençãos.

A Treatise, p. 21

O argumento de Spilsbery, aparentemente burlesco, revela algo importante. Sua lógica é a seguinte:

Se os pais devem batizar seus filhos fundamentando-se no fato de que a Aliança da Graça assegurava à descendência de Abraão o seu pertencimento, isso significa que os pais estariam, na nova administração da aliança, assumindo o lugar de Abraão. Mas a relação de um pai crente com seu filho não pode ser a mesma de Abraão com sua descendência, porque o fundamento da aliança de Abraão repousava sobre sua descendência particular e carnal, enquanto o fundamento da Nova Aliança repousa sobre uma coletividade de sementes, nomeadamente a igreja. Portanto, não são os filhos de Abraão que devem receber o sinal da aliança, e sim os filhos da Igreja. Mas os filhos da igreja são apenas os salvos e regenerados, e por isso os bebês, filhos de crentes, não devem ser batizados. Caso os pedobatistas insistam no paralelo entre Abraão e os pais de crentes, pela lógica, diz Spilsbery, cada um seria Abraão-em-si-mesmo, ou Abraão em sua própria família – como se Deus firmasse uma aliança com cada pai crente, e não com Cristo, ao qual todos estão ligados. O resultado seria a existência de milhares de Abraãos e nenhum filho de Abraão! Por isso, na margem do texto, Spilsbery fez questão de assinalar: “Crentes não são Abraãos, mas apenas filhos de Abraão”.

*

CALVIN, John. Institutes of the Christian Religion (trad. Henry Beveridge). Hendrickson Publisher, 2008.

COXE, Nehemiah. A Discourse of the Covenants That God made with Men before the Law. Londres, 1681.

RUTHERFORD, Samuel. On the Baptism of the Children of Adherents. Desconhecido.

SPILSBERY, John. A Treatise Concerning the Lawfull Subject of Baptism. Londres, 1642.

WARFIELD, B. B. The Polemics of Infant Baptism, in: Studies in Theology, vol. 9.

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