As raízes batavas e congregacionais do “half-way covenant”

O assunto é ligeiramente off-topic para os propósitos deste site, mas costuma circular com frequência na literatura batista, geralmente servindo como um exemplo das aporias do pedobatismo. Paul K. Jewett descreveu o problema do half-way covenant e de suas origens da seguinte forma:

[…] Os Puritanos, em Massachusetts, batizavam todas as crianças de cristãos professos. Assim, havia (como é sempre o caso nas comunidades Pedobatistas) um duplo tipo de membresia eclesiástica. Havia alguns que eram membros somente por batismo, aqueles nascidos de crentes professos; outros eram membros plenos da aliança, com direito a participar da comunhão, os quais eram eram nascidos de novo do Espírito de Cristo (daí a distinção entre membros “não-comungantes” e “comungantes” nos governos Presbiterianos e Reformados). Como resultado de tal arranjo, naturalmente aparecia, na segunda geração, pessoas adultas batizadas enquanto bebês que eram ortodoxos nas crenças e corretos em sua vida, embora não fizessem profissão de uma experiência pessoal da graça salvífica de Deus em seus corações e nunca chegassem à comunhão como membros plenos da igreja. Essas pessoas, compreensivelmente, não se consideravam pagãs e infiéis. Não estavam elas “na aliança”, e não tinham recebido o batismo como sinal da aliança? Por que, então, seus filhos deveriam ser privados do mesmo privilégio? Poderíamos colocar desta forma: Se Deus tem filhos (crentes) e netos (filhos de crentes), por que ele não pode ter bisnetos (filhos de filhos de crentes)?

Infant Baptism, pp.116-119.

O caso limite é ainda pior: filhos de pais que apostataram da fé mas cujo batismo era reivindicado de alguma maneira.

Em 1634, um membro plenamente comungante da Igreja Congregacional de Dorchester requereu batismo para seu neto, já que seus pais imediatos não professavam fé pessoal em Cristo. Buscou-se conselhamento da igreja de Boston e um conselho de consentimento foi dado.

Idem, p.118

Brandon Adams mostrou um incômodo legítimo com os relatos que sugerem que o half-way covenant teria sido inventado na Nova Inglaterra como resposta a um novo contexto. Argumentou e demonstrou que essa prática não é nada além de um desdobramento natural da posição clássica pedobatista: assim como o filho do judeu é batizado em razão de sua filiação a Abraão, e não a seus pais imediatos, o filho do cristão é batizado em razão de sua – suposta – filiação aliançada a Cristo, e não em função da fé de seus pais imediatos. Mas, embora a teologia que sustenta o half-way covenant possa ser demonstravelmente pristina, todos os exemplos do fenômeno apresentados por Jewett ou Adams nos levam, invariavelmente, à Nova Inglaterra.

Acontece que Champlin Burrage sinaliza, en passant, um caso interessante transcorrido ainda na Holanda, em 1633, envolvendo John Davenport e John Paget. Davenport é digno de uma breve nota biográfica, que Burrage extrai dos documentos conhecidos como “The Jessey Memoranda”:

A partir destes Memoranda, parece que durante o ano de 1632, enquanto a congregação Puritana Independente de John Lathrop estava sofrendo grande perseguição, Davenport pregou um sermão condenando o Independentismo. Algumas notas do que ele disse foram trazidas ao pessoal de Lathrop, que foram desafiados a dar uma resposta. O desafio foi aceito […]. A congregação de Lathrop, consequentemente, estudou o que Davenport havia escrito e elaborou, para este, uma extensa resposta, que teve o efeito de que ele nunca mais compareceu à Comunhão da Igreja da Inglaterra, “mas fugiu quando chegou o dia do Sacramento, e depois pregou, publicamente & privadamente pela verdade, & logo em seguida foi para a Holanda, onde sofreu um tanto em nome da verdade…”.

English dissenters, p.306

Tendo se convertido ao Independentismo, Davenport se dirigiu à Holanda, onde as coisas não correram tão bem. E aqui está o coração do problema:

Parece que Davenport veio para a Holanda no começo de 1633/34, para escapar da perseguição, e esperava retornar à Inglaterra após uma ausência de três ou quatro meses. Ele agora fora convidado para se tornar co-pastor com John Paget na congregação Inglesa de Amsterdam, mas infelizmente suas visões e as de Paget não estavam inteiramente em harmonia. O assunto a respeito do qual eles principalmente discordavam era a administração do batismo. Parece que Davenport se opunha a batizar bebês “a menos que ele aprovasse a fé e a vida de seus pais”, enquanto Paget o queria batizando qualquer bebê que fosse trazido até ele e que não tivesse já sido batizado.

Idem, ibid.

É, sem dúvida, o mesmo dilema que alvoroçou a Nova Inglaterra no século XVII. Encurtando a história, a situação se complicou ainda mais porque o costume das igrejas independentes na Holanda era de que ambos os pastores da congregação participassem ativamente da cerimônia de batismo. Longas e exaustivas rusgas levaram ambos os homens à separação total e à troca pública de libelos indigestos.

Fica claro, então, que o problema do half-way covenant não era restrito à colônia, mas sim um fenômeno atlântico. Curiosamente (e nada coincidentemente), a questão começou a se manifestar simultaneamente no Velho e no Novo Mundo cerca de vinte anos depois de Henry Jacob ter plantado a primeira igreja independente na Inglaterra, ao regressar da Holanda em 1616. O half-way covenant foi uma doença no coração do aliancismo reformado clássico, mas que se manteve em estado de latência até que Jacob disparasse o gatilho, a saber, “exigir um Novo Pacto a ser feito por membros da igreja antes que pudessem ser comungantes”. A disjunção entre batismo e profissão de fé foi o germe de toda essa problemática. A solução oferecida pelos batistas foi extraordinariamente simples: o sacramento acompanha a profissão de fé.

*

BURRAGE, Champlin. The Early English Dissenters in the light of recent research (1550-1641). Cambridge University Press, 1912.

JEWETT, Paul K. Infant Baptism & the Covenant of Grace. Grand Rapids: Eerdmans, 1978.

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