Batismo e profissão de fé: Identidade ontológica ou alteridade simbólica?

[…] de forma que, se não há batismo em Cristo, então não há confissão de Cristo, segundo esta prescrição, Mt 28:19; 1 Cor 12:13; Gl 3:27; Rm 6:3; Ef 4:5; Lc 7:30.

John Spilsbery

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Há poucos dias, no Facebook, surgiu a pergunta: “Qual texto bíblico afirma que o batismo é uma profissão de fé pública?”.

                       

Como o próprio autor da questão esclareceu mais tarde, subjaz à pergunta uma visão de profissão e batismo como manifestações distintas e dissociadas, e a indagação foi motivada por uma dificuldade de entender o batismo enquanto profissão de fé (i.e., identidade ontológica):

                         

Na sequência, o tópico suscitou uma discussão sobre a confessionalidade e historicidade da visão de que o batismo é uma profissão pública de fé, o que levou ao questionamento se essa visão era familiar ou estranha à Patrística Batista e ao puritanismo de seu contexto, tratando-se de doutrinas póstumas ligadas a uma visão simbolista do batismo.

                       
                     

Tive a oportunidade de conversar individualmente com o Henrique Botini, que me esclareceu que não tinha nenhuma intenção de questionar a visão do batismo enquanto profissão de fé durante o século XVII, mas sim de propor que a visão do batismo somente enquanto profissão de fé, privado de benefícios espirituais concretos, seria alheia aos puritanos e à Patrística Batista, no que eu julgo que ele está correto.

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Uma resposta objetiva à pergunta inicial poderia ser elaborada a partir de uma leitura de Atos 22:16 e de Atos 8:36-38 como prática normativa.

E agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o nome dele.

Atos 22:16

E, indo eles caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. E mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e o batizou.

Atos 8:36-38

Mas, considerando o que se perde ao reduzir a questão a versículos-prova e as dúvidas que a exegese possa querer lançar sobre eles, creio que é interessante explorar um pouco mais o tema. Como é consabido, inúmeras doutrinas resultam de um esforço hermenêutico (bíblico, conceitual, histórico) para criar um quadro coeso de ideias e práticas. O batismo como profissão de fé depende, naturalmente, desse esforço, por isso é muito pouco profícuo indagar “o texto bíblico” usado para comprovar essa ideia. Trata-se, portanto, de um constructo teológico – das mesma forma, aliás, que a doutrina do batismo infantil. 

O objetivo deste artigo é simples e despretensioso. Pretendo (I) oferecer alguns argumentos contemporâneos sobre a visão de que o batismo pode ser entendido como profissão de fé; (II) Demonstrar que a ideia do batismo como profissão de fé não é alheia aos batistas do século XVII. Minha única intenção aqui é oferecer a voz de outros autores que podem contribuir com a discussão. Conforme, ao longo de minhas leituras, me deparar com outras instâncias que toquem esse tema, pretendo expandir este artigo incluindo os demais autores. 

 

Bobby Jamieson: “Quando a fé se torna pública”

Primeiramente, um exemplo recente. Em 2015, Bobby Jamieson, pastor auxiliar na Capitol Hill Baptist Church, publicou sua importante obra Going Public: Why Baptism Is Required for Church Membership. O subtítulo da obra deixa claro qual é a tese central do livro. Contudo, Jamieson percorre um longo caminho teológico a fim de defender sua posição e, entre outras coisas, argumenta precisamente que o batismo deve ser entendido como uma profissão pública de fé. O batismo, diz, é “quando e fé se torna pública”. 

O primeiro argumento de Jamieson remete ao evento de Pentecostes, colocando o leitor na pessoa de um dos judeus presentes:

Quando Pedro termina seu sermão extemporâneo, você interpela ele e seus amigos, ‘Irmãos, o que hei de fazer?’.

Pedro responde, ‘Arrependam-se e sejam batizados, cada um de vocês, em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos seus pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo […]’.

Pense sobre o que o batismo significa neste contexto. Você está em uma multidão de Judeus, alguns dos quais pediram pela execução de Jesus há apenas algumas semanas. Os discípulos de Jesus protagonizam um espetáculo público. E eles estão conclamando outros a se juntarem a eles, bem na frente de todos, por meio da crença em Jesus e do mergulhar nas águas. Voltar-se para Jesus em fé e batismo é identificar-se com ele e seus seguidores e se distanciar daqueles que o rejeitam.

Going Public, p. 37.

Jamieson referencia, a este respeito, a obra de G. R. Beasley-Murray, Baptism in the New Testament. Seu argumento é que o batismo é a forma pela qual os cristãos se identificam, não para si mesmos, mas para os outros, em meio aos outros. Outras passagens interessantes complementam o argumento de Jamieson:

No Novo Testamento, todos os cristãos são batizados, e todas as evidências que nós temos apontam para o fato das pessoas sendo batizadas assim que abraçavam o evangelho. Depois de confiar em Cristo, o batismo é a primeira coisa que um crente faz. É como a fé se torna pública.  […]

O Batismo faz da fé algo visível; concede ao crente, à igreja e ao mundo algo para o qual olhar. Quando você confia em Cristo, você torna essa decisão visível no batismo. Isso ajuda a explicar porque os autores do Novo Testamento frequentemente falam do batismo de formas que poderiam ser tomadas como indicativo de que as bênçãos da salvação vêm por meio do próprio batismo. Quando eles queriam se referir à conversão como um todo unificado, os autores do Novo Testamento frequentemente empregam o batismo como atalho para a coisa toda. 

Considere Gálatas 3:26-27. […] Estaria Paulo dizendo que nós somos feitos filhos de Deus pela fé, mas somos unidos a Cristo somente no batismo? Estaria ele parcelando os componentes da nossa salvação e atribuindo alguns à fé e alguns ao batismo? É claro que não; isso estaria em contradição com todo seu argumento. Em vez disso, ele está usando “batismo” e “fé” de forma intercambiável […]

Enquanto tal, o batismo é a personificação visível de uma guinada decisiva de alguém, do pecado para Cristo. É uma forma simbólica de dizer diante de Deus, à igreja e ao mundo, “eu renuncio meu modo de vida anterior, arrependo-me dos meus pecados e confio em Cristo somente para salvação”. 

Idem, pp. 38-43, passim

O argumento de Jamieson é bastante simples. O batismo é a forma pela qual Cristo é professado por aquele que decidiu segui-lo. Corroborando sua tese, é relevante notar que Pedro nunca disse aos judeus em Pentecostes que eles deveriam a) se arrepender, b) se batizar e c) fazer uma profissão de fé pública. O batismo, em si, comporta o elemento da profissão de fé. 

 

Hercules Collins: “confissão visível” e “sinal vivo”

Quanto ao segundo ponto, tratarei da questão confessional mais adiante. Por ora, vale a pena investigar os conceitos e o vocabulário empregados pelos batistas do século XVII ao discorrerem sobre o significado do batismo. Um caso interessante é o de Hercules Collins. Em sua obra Believer’s Baptism from Heaven, and of Divine Institution, Collins afirma que

[…] o Batismo é uma representação viva da Regeneração, portanto só pode agir sobre Crentes. O Apóstolo alude ao Batismo quando fala do lavar da regeneração, Tito 3:5. O significado é que a Ordenança é um Emblema, Símbolo e Sinal vivo da Regeneração e do Novo Nascimento. Aos Colossenses (2:12), o Apóstolo lhes diz que seu Batismo exibia e manifestava¹ o estarem mortos e terem sido ressurretos com Cristo pela fé […]

¹No original, “did exhibit and show forth“. Uma outra tradução possível, que corroboraria ainda mais o nosso argumento, seria “proclamava”.

Believer’s Baptism, p. 26.

O interessante do texto é que a passagem em questão, Cl 2:12, não explicita que o batismo “exibia e manifestava [ou proclamava]” a verdade do evangelho. Isso é uma interpretação do Collins, que vê no sacramento uma forma de profissão, de fala simbólica e silenciosa. Collins nos faz pensar, portanto, no batismo não apenas como um símbolo com um significado em si, mas com uma mensagem a ser transmitida, proclamada e assimilada por quem o contempla. Nesse caso, a mensagem do batismo seria a própria profissão de fé no Cristo ressurreto. 

Em seu célebre An Orthodox Catechism, vemos Collins mais uma vez endereçando a questão:

P. Qual é a forma e finalidade desta Ordenança?

R. Os Ministros de Cristo impondo suas mãos solenemente sobre a Cabeça do Batizando, com Oração ao Deus Todo Poderoso por um acréscimo das Graças e Dons do Espírito Santo, para nos habilitar a permanecermos firmes na Fé que nós agora confessamos¹ visivelmente, havendo entrado na Igreja pelo Santo Batismo, e também sermos auxiliados, assim, a mantermos uma Guerra constante contra o Mundo, a Carne e o Diabo. 

¹ No original, “which we now visibly own“. Outras traduções possíveis seriam “reconhecemos”, “professamos”, “admitimos”. Nenhuma dessas traduções minimiza a força da ideia aqui transmitida.

Orthodox Catechism, p. 34

Collins nos diz, portanto, que a porta de entrada na igreja é o batismo, que nada mais é do que uma “confissão visível”, ou uma “admissão visível”, ou “proclamação visível” da fé. 

 

John Spilsbery e o batismo como profissão de fé

Spilsbery, batista da primeira geração de Particulares, nos fornece outro exemplo relevante que indica a presença evidente da noção de batismo como profissão de fé entre os batistas do século XVII. Em pelo menos duas ocasiões, Spilsbery se manifesta sobre a relação entre batismo e profissão de fé em seu tratado The Saints Interest by Christ in all the Priviledges of Grace (constitutivo da obra God’s Ordinance, the Saints Priviledge). A primeira aparece de forma pontual, sumária e inconfundível:

Tire de um homem sua fé, ou sua profissão de fé, e não há nenhum nome encontrado para esse homem na nova Aliança de Cristo, Ap 22:14; Hb 3:1; Hb 10:22-23. Ninguém deve ser reconhecido, seja por Deus ou pelos homens, como membros de Cristo, se não estiverem debaixo de uma profissão de fé dele; como aparece em Mt 10:32-33; 1 Jo 4:3. E não há, agora, nenhuma profissão de Cristo segundo a regra de sua Palavra sem o Batismo, Mt 28:19; Marcos 16:16; Lc 7:30; Gl 3:26-27; Ef 4:5.

Saint’s Interest, p. 23.

A segunda instância desse pensamento aparece de forma mais elaborada, na “Questão 6” da obra, que investiga

Se Cristo exige ou não uma confissão pública de si da parte de todos que creem nele; e, se ele o faz, então qual é ela e qual a Regra para tal. 

Agora, que Cristo exige uma confissão pública de si da parte de todos que creem nele é tão claro nas Escrituras que, suponho, ninguém que crê nas Escrituras irá negá-lo, Mt 10:32-33, Jo 12:42-43, Rm 10:9-10, 1 Jo 4:2-3. 

Mas, para um esclarecimento mais pleno desta verdade, duas coisas devem ser ponderadas:

  1. O que queremos dizer com crer em Cristo.
  2. O que [queremos dizer] com confissão de Cristo.

No tocante ao primeiro; por crer em Cristo, eu quero dizer acreditar que Jesus é o Cristo, de que João fala em 1 Jo 5:1. O crer de todo o coração, de que Filipe fala em Atos 8:37. Aquele crer com o coração para justiça, de que Paulo fala em Rm 10:9-10. 

No tocante ao segundo; a confissão que Cristo exige dos homens que assim creram é confessá-lo, em seu Nome e nos Títulos com que seu Pai o honrou e o enviou, viz., Ser um salvador único e suficiente, e o Mediador de uma nova Aliança¹; como Rei, Sacerdote e Profeta. Um Sacerdote para comprar e redimir seu povo; um Profeta para ensinar e instruir aquele povo; e um Rei para proteger e defender o dito povo em sua obediência à verdade, revelada por ele enquanto Profeta e, por ele enquanto Rei, requisitada obediência. E assim como isso deve ser conhecido e crido da parte daqueles que esperam vida dele, assim também isso deve ser confessado, por meio de uma declarada sujeição a ele nessa mesma vida. A Regra de tal sujeição declarada e confissão é a norma instituída e administração da Aliança de Cristo; pois nenhuma outra confissão ele aprova, senão aquela que o toma por Jesus Cristo, o Filho de Deus, vindo em carne, morte e ressurreto, ascendido e exaltado à mão direita de Deus, ao trono de seu Pai Davi; e para ser, assim, Senhor dos Senhores e Rei dos Reis. […] Pois os benefícios de Cristo enquanto Mediador, e sua administração, e o estado, norma e regras daquela Aliança pela qual ele é Mediador, e os indivíduos participantes daqueles benefícios, andam juntos no registro da Escritura; de forma que, se não há batismo em Cristo, então não há confissão de Cristo, segundo esta prescrição, Mt 28:19; 1 Cor 12:13; Gl 3:27; Rm 6:3; Ef 4:5; Lc 7:30.

¹ No original, Testament. No vocabulário de Spilsbery, a palavra pode ganhar significado de “aliança”, como se vê algumas páginas antes, quando se refere a Cristo como “mediador deste Testamento [i.e., Aliança]”. 

Saint’s Interest, pp. 26-27.

O argumento de Spilsbery é bastante interessante e semelhante ao que Jamieson apresentou. O que ele nos diz é que aquilo que se crê acerca de Cristo deve também ser  publicamente confessado, e deve ser confessado nos termos estabelecidos pela Nova Aliança em Cristo. Esses termos, por sua vez, incluem o batismo, sinal da aliança no sangue de Cristo. O batismo, portanto, é a forma pela qual se manifesta a “sujeição declarada” do cristão. O cristão professa aquilo que crê sujeitando-se à ordenança do batismo, portanto, sem batismo, sem confissão. 

 

O problema da confessionalidade

Por fim, vamos à questão confessional. É verdade que as confissões batistas não especificam o batismo enquanto profissão de fé, mas uma análise atenta da Confissão de 1689 pode nos dar algumas pistas. Essas pistas não serão encontradas no capítulo sobre o batismo. Os signatários da confissão não tinham nenhum interesse em apresentar um entendimento radicalmente novo do batismo em oposição à WCF e da SD. Isso seria politicamente desastroso e teologicamente desnecessário. Como se sabe, as maiores modificações da confissão, tanto em relação à WCF quantoàquanto SD, se encontram no parágrafo sobre a doutrina da igreja, e para ali devemos nos voltar.

Os membros dessas igrejas são santos por chamado, manifestando e evidenciando visivelmente (em sua profissão e caminhada, e por meio delas) sua obediência àquele chamado de Cristo; e voluntariamente consentem em caminhar juntos, de acordo com a prescrição de Cristo; entregando-se a si mesmos ao Senhor e uns aos outros, pela vontade de Deus, em declarada sujeição às ordenanças do Evangelho. 

2LCF, XXVI, §6

A semelhança entre esse parágrafo e o argumento de Spilsbery é patente. A confissão afirma que os santos exibem visivelmente sua obediência por meio de sua caminhada e de sua profissão de fé. Essa obediência, por sua vez, se manifesta por meio da “declarada sujeição” às ordenanças do evangelho, i.e., ao Batismo e à Ceia do Senhor. Repare que a expressão “declarada sujeição” (professed subjection) é exatamente a mesma usada por Spilsbery. Significa que, no entendimento dos batistas, a sujeição ao batismo é, em si, a profissão de fé do regenerado, pois ao submeter-se à ordenança batismal ele evidencia sua obediência ao Senhor. É, portanto, na relação entre regeneração, membresia, batismo e confissão que deve ser buscado, em termos confessionais, o nexo entre o batismo e a profissão de fé.

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COLLINS, Hercules. Believer’s Baptism from Heaven, and of Divine Institution; Infants Baptism from Earth and Human Invention. Londres, 1691.

______. An Orthodox Catechism: Being the Sum of Christian Religion, Contained in the Law and Gospel. Londres, 1680.

JAMIESON, Bobby. Going Public: Why Baptism Is Required for Church Membership. Nashville: B&H Publishing Group, 2015.

SPILSBERY, John. The Saints Interest by Christ in all the Priviledges of Grace. In: God’s Ordinance, the Saints Priviledge. Londres, 1646.

UMA CONFISSÃO de fé. Publicada pelos Presbíteros e Irmãos de muitas Congregações de Cristãos (batizados sob Profissão de sua Fé), em Londres e no Interior. Impressa em 1677 (2LCF). 

Batismo: “Sacramento” ou “Ordenança”? O contexto histórico e teológico de um debate mal colocado.

O Batismo é uma Ordenança do Novo Testamento, instituído por Jesus Cristo, sendo, para a pessoa batizada, um símbolo de sua comunhão com Ele, em Sua morte e ressurreição; de sua união com Ele; da remissão dos pecados, e da sua consagração a Deus, através de Jesus Cristo, para viver e andar em novidade de vida.

2CFL, XXIX, 1

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Essas palavras, extraídas da Segunda Confissão de Fé Londrina, frequentemente levantam suspeitas, entre os reformados, sobre o verdadeiro intento dos batistas no processo de reescrita dos artigos originais da Westminster Confession of Faith (1646) e da Savoy Declaration of Faith (1658). Por que os batistas teriam se esquivado, intencionalmente, do emprego da palavra “sacramento”? Teriam, acaso, uma visão pobre e deflacionária do batismo, ao ponto de descartar seu estatuto consagrado, no terreno reformado, de “meio de graça”? Seria isso o reflexo de uma visão racionalista de culto? Os reformados de pouca simpatia pelo movimento batista confessional costumam caminhar no sentido afirmativo, enquanto os batistas que batalham por um espaço no espectro reformado, negando as acusações, investem em diversas respostas potencialmente razoáveis para o fenômeno.

 

A Declaração de Fé de Savoia e a trilha Congregacional

Um fato singelo já nos indica que a oposição entre “ordenança” e “sacramento” é mal colocada: tanto a Confissão de Westminster quanto a Declaração de Fé de Savoia empregam o termo “ordenança” inúmeras vezes referindo-se aos sacramentos neotestamentários, notadamente o batismo (WFC VII, 5, 6; XXV, 3, 4; XXVIII, 5, 6; DFS VII, 5; XXVI, 2, 6, 9, 16, 21, 23, 24, 28; XXIX, 1, 2, 5, 6). Por outro lado, é notório o esforço da 2CFL no sentido de reconfigurar o vocabulário religioso confessional, adotando “ordenança” sempre que o termo “sacramento” fosse empregado. Não é fortuito que os batistas tenham suprimido o capítulo XXVII da WCF, “Dos Sacramentos”.  O que é pouco percebido é que esse trabalho de substituição lexical já havia sido iniciado pela Declaração de Savoia, o que sugere que os batistas estavam apenas seguindo um caminho já pavimentado pelos Congregacionais.

Os dois exemplos abaixo mostram, visivelmente, os batistas caminhando sobre a trilha dos congregacionais e oferecendo sua própria contribuição:

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John Spilsbery contra as “Igrejas reformadas”

John Spilsbery – cuja grafia tradicional transformou-se em “Spilsbury”, embora não haja nenhum registro original que o corrobore – foi um dos principais pastores da primeira geração de Batistas Particulares. Sua igreja, em Wapping, à beira-Tâmisa, foi uma das primeiras a se formar como dissidência da igreja JLJ. A história é conhecida. Desconhecida, porém, é a forma que Spilsbery enxergava as igrejas reformadas, porém “não batizadas”, isto é, aquelas que não reconheciam no credobatismo o único e verdadeiro batismo e por isso comportavam em sua membresia uma quase totalidade de batizados infantes. Vejamos o que pensava sobre as igrejas reformadas pedobatistas e como enxergava a questão da dissidência religiosa:

Falo a respeito,¹ creio, da última Igreja ou Igrejas [a se constituírem], isto é, todas as Igrejas reformadas que ainda mantêm o batismo de infantes, são tão contrárias às regras do Novo Testamento quanto as anteriores. Pois certamente onde existe um falso estado, constituído por um falso poder, todas as ordenanças estatais essenciais à mesma e constituídas pelo mesmo poder devem ser também da mesma natureza que as demais, que são igualmente falsas […]

[…] tomar uma Igreja como verdadeira e as ordenanças ali administradas como verdadeiras ordenanças de Deus, e deixá-la, erguendo um caminho de adoração à parte e em oposição, e negar comunhão com ela, é, em meu bruto entendimento, um mesmo cisma e a derrubada de toda ordem na Religião. Até onde aprendi de Cristo, os homens devem permanecer em seus lugares e usar todos os meios para reformar, corrigir e reprovar pela palavra da verdade; tudo isso sendo feito e, por necessidade, eu deva pela palavra de Deus deixar a comunhão com eles, eu penso que pela mesma regra eu deva renunciar a eles e assim separar -me deles, caso eles não se arrependam […]

¹ Ou “em respeito”.

A Treatise, pp. 61, 65.

Essa leitura contrasta bastante com a apresentação que Matthew Bingham faz da posição de Spilsbery.

As circunstâncias inusuais que circundam a publicação do Treatise concerning the Lawfull Subject of Baptism, em 1643, oportunamente ilustra tanto o escopo transatlântico do congregacionalismo batístico quanto a auto-identidade daqueles envolvidos. Spilsbery conduzia uma igreja batística em Londres já em 1638. Durante aquele ano, seis membros da igreja de Henry Jessey, ‘estando convencidos que o Batismo não era [adequado] para Infantes, mas sim para Crentes professos, juntaram com o Sr. John Spilsbery, requisitando o consentimento da Igreja para tanto”. Tanto o fato de que os seis membros de saída conheciam o caminho para a comunhão de Spilsbery quanto o fato de que eles buscaram “o consentimento da Igreja [i.e., presumivelmente, a igreja de Jessey]” para proceder, testificam as relações amistosas entre as duas congregações de Londres.

Orthodox Radicals, pp. 44-45.

Bingham insiste, ao longo de sua obra, na relação cordial entre os “batistas congregacionalistas” e os “independentes”. Insistentemente, lança seu foco sobre a figura de Henry Jessey, uma espécie de ecumênico reformado. Segundo Bingham, durante a década de 1650, uma série de “desafios práticos e intelectuais” deram início a uma divisão interna.

Diferentes igrejas batísticas responderam de forma muito diferente e, como resultado, pela metade da década [de 1650], os congregacionalistas batísticos ficaram divididos em duas correntes divergentes: uma era aberta, irênica e ecumênica, a outra, restrita, combativa e sectária; a primeira corrente buscou solidificar sua conexão com o congregacionalismo mainstream, enquanto a segunda começou a buscar distância dele.

Idem, p. 132.

Na interpretação de Bingham, os “congregacionais batísticos” foram o resultado de uma visão teológica, principalmente eclesiológica, no interior dos congregacionais, ou independentes. Não há grande polêmica acerca disso. Mas ele também entende que a dissidência foi irênica, pacífica e ecumênica, nos moldes do “semi-separatismo” jacobita, e que a vertente mais separatista e radical dos “congregacionais batísticos” se originou somente na década de 50. Entretanto, a postura desses batistas, desde a primeira geração, parece dizer o contrário (ver também aqui, por exemplo).

Spilsbery, segundo Bingham, pode ser apontado como  um dos exemplos de fraternidade congregacional. Mas no próprio texto referenciado por Bingham, Spilsbery declara sua visão pouco simpática a quaisquer igrejas, mesmo as reformadas, que continuam a celebrar o batismo infantil. A visão de Spilsbery é clara: o batismo infantil é reflexo ou resquício de uma prática de igrejas nacionais, e portanto é uma administração errônea do sacramento. Igrejas que administram de forma inadequada os sacramentos não podem ser igrejas verdadeiras. Daí que as igrejas reformadas pedobatistas são necessariamente falsas, cumprindo-lhes o arrependimento ou a dissidência em nome da verdade.

É possível que Spilsbery tenha chegado a suas conclusões aqui expostas somente em 1642, e que a dissidência da igreja JLJ tenha sido pacífica? É possível. Dificilmente saberemos. O fato é que não se pode postergar as divergências e tensões teológicas entre batistas e congregacionais até a década de 50. Elas aparecem desde o início na literatura batista e podem ser, inclusive, uma das causas da ascensão dos Batistas Particulares.

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BINGHAM, Matthew. Orthodox Radicals: Baptist Identity in the English Revolution. Oxford Univeristy Press, 2019.

SPILSBERY, John. A Treatise Concerning the Lawfull Subject of Baptism. Londres, 1642.

A Assembleia de Westminster, a 1ª Confissão de Fé Batista de Londres (1644) e o curioso caso dos informantes Independentes; ou B. R. White vs Matthew Bingham: “orthodox” ou “radicals”?

É natural e compreensível que o movimento batista reformado conceda uma ênfase capital à Segunda Confissão de Fé de Londres (2CFL). Ela é, de fato, o documento medular do movimento em seu traçado teológico. Entretanto, do ponto de vista histórico, a Primeira Confissão de Fé de Londres (1CFL) é muito mais curiosa e instigante, apesar de receber uma atenção bem mais acanhada. Um estudo do contexto histórico que levou à formulação da 1CFL nos esclarece muito sobre sobre o movimento batista e sua identidade.

Tradicionalmente, a compreensão dos eventos que levaram à confecção da 1CFL se limitou aos dados fornecidos pelo próprio documento, por alguns de seus protagonistas e por uma contextualização mais geral do movimento separatista no século XVII. O exemplo mais bem formulado dessa apresentação foi composto por B. R. White, um dos maiores e mais argutos historiadores do movimento batista:

Os motivos por trás da publicação da Confissão de 1644 foram principalmente, e explicitamente, apologéticos, conforme foram descritos por seus signatários em seu prefácio. Eles frequentemente foram injustamente acusados, alegam, ‘tanto em Púlpito quanto em Prelo… de defender o Livre-arbítrio, a Perda da graça, de negar o pecado Original, rejeitar a Magistratura, negar-se a assisti-los, seja com pessoas ou recursos, em quaisquer de seus Mandamentos lícitos, de realizar atos indecorosos na administração da Ordenança do Batismo, [de] modo a não sermos tomados por Cristãos’. O efeito de tais calúnias foram de não apenas alienar as simpatias dos santos, mas de encorajar os ímpios, ‘se eles puderem encontrar os locais de nossas reuniões, a formarem bandos para nos apedrejar’. Consequentemente, os líderes de suas congregações determinaram publicar sua Confissão para manifestar sua concordância substancial com as formas predominantes da ortodoxia Calvinista. Ademais, eles anunciaram que a Confissão havia sido assinada pelos representantes escolhidos de sete congregações para evitar a suspeita de que ‘o que está aqui publicado possa ser o Julgamento senão de alguma Congregação individual, mais refinada do que as demais’.

Doctrine of the Church, p. 571.

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Localização das igrejas batistas signatárias da 2CFL (1677)

Quando este projeto foi concebido, a escolha de seu nome refletiu o objetivo explícito de parafrasear a – lamentavelmente – influente obra de J. M. Caroll, Rastro de Sangue. A lógica era, e continua sendo, lidar com a documentação original com rigor histórico proporcional à licenciosidade literária de Caroll. Em oposição ao rastreamento de uma genealogia eclesiástica pura, busquei compreender a dinâmica das origens das igrejas batistas no contexto britânico, traçando – ou rastreando – o caminho das águas. Um dos resultados dessa pesquisa segue abaixo:

Igrejas Signatárias 2LCF

Trata-se da localização, com aproximação segura, das igrejas e pregadores signatários da Segunda Confissão de Fé de Londres, de 1677. Naturalmente, as 10 igrejas de Londres são indicadas com um único marcador, assim como as 2 de Southwark (hoje sul de Londres), e as de Bristol e Broadmead.

Abaixo das imagens ampliadas, segue a lista das localizações exatas, aproximadas e incertas em relação a seus marcadores. A única congregação que não possui correspondência no mapa, por ora, é a de Kingsworth (?). Não encontrei ainda registro da cidade/vilarejo correspondente no condado.

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A 1CFL e o mistério dos “Ministros Franceses”

Na outra [edição], há cinco nomes que não estão nesta, a saber, Hansard Knollys, Benjamin Coxe, Thomas Holmes, e os Ministros Franceses, sobre os quais, e de cuja igreja, nós nada sabemos.

Joseph Ivemey, History of the English Baptists, vol.II, p. 295.

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A história, enquanto relato fidedigno dos eventos passados, está sujeita incontornavelmente às limitações exasperantes da história enquanto disciplina. Aquilo que a disciplina histórica não pode acessar, por falta de documentos ou de pesquisas, está para sempre privado do status de “fato histórico” – e, por isso mesmo, à mercê da literatura e dos discursos fantasiosos. No caso da história dos Batistas, muitas pedras jamais serão reviradas. É certo que muitos documentos se perderam, mas muitos outros também jamais serão redescobertos ou estudados. É a sina de uma área de pesquisa tão particular que, no mais das vezes, é vitimada por teólogos ou ideólogos pouco criteriosos que as pilham como bem entendem. Precisamos, a contragosto, aprender a lidar com o misterioso e o inacessível na história dos batistas.

Posto o desabafo, existe um curioso detalhe a respeito da Primeira Confissão de Fé Londrina que quase nunca é endereçado – compreensivelmente, por falta de dados a respeito. Sabemos que a primeira edição, de 1644, foi assinada por 7 igrejas de Londres, Middlesex. Sabemos também que ela foi revista e novamente publicada em 1646. Sabemos ainda que os nomes de alguns signatários desapareceram da confissão e que outros nomes foram adicionados.

1LCF1644

Signatários da 1CFL (1644)

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As raízes batavas e congregacionais do “half-way covenant”

O assunto é ligeiramente off-topic para os propósitos deste site, mas costuma circular com frequência na literatura batista, geralmente servindo como um exemplo das aporias do pedobatismo. Paul K. Jewett descreveu o problema do half-way covenant e de suas origens da seguinte forma:

[…] Os Puritanos, em Massachusetts, batizavam todas as crianças de cristãos professos. Assim, havia (como é sempre o caso nas comunidades Pedobatistas) um duplo tipo de membresia eclesiástica. Havia alguns que eram membros somente por batismo, aqueles nascidos de crentes professos; outros eram membros plenos da aliança, com direito a participar da comunhão, os quais eram eram nascidos de novo do Espírito de Cristo (daí a distinção entre membros “não-comungantes” e “comungantes” nos governos Presbiterianos e Reformados). Como resultado de tal arranjo, naturalmente aparecia, na segunda geração, pessoas adultas batizadas enquanto bebês que eram ortodoxos nas crenças e corretos em sua vida, embora não fizessem profissão de uma experiência pessoal da graça salvífica de Deus em seus corações e nunca chegassem à comunhão como membros plenos da igreja. Essas pessoas, compreensivelmente, não se consideravam pagãs e infiéis. Não estavam elas “na aliança”, e não tinham recebido o batismo como sinal da aliança? Por que, então, seus filhos deveriam ser privados do mesmo privilégio? Poderíamos colocar desta forma: Se Deus tem filhos (crentes) e netos (filhos de crentes), por que ele não pode ter bisnetos (filhos de filhos de crentes)?

Infant Baptism, pp.116-119.

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.:Indicação:. Matthew Bingham @ Regular Reformed Guys

Depois de alguns contratempos, o Regular Reformed Guys lançou seu podcast com a presença de Matthew Bingham como convidado. Sou um entusiasta do trabalho de Bingham, mas tenho algumas divergências consideráveis referente à sua obra Orthodox Radicals, que foi objeto da discussão do podcast. Decidi endereçar essas divergências em vias mais acadêmicas, o que significa que, provavelmente, isso ainda levará algum tempo. Para quem já leu seu livro, há pouco que o episódio possa acrescentar. Saliento apenas três pontos em sua fala:

  1. Finalmente Bingham ofereceu uma explicação verbalizada do título de seu livro (próximo aos 53 min.). Quando se intitula com um oximoro, literalmente, uma obra que pretende reinterpretar a história dos batistas, é de bom tom discorrer sobre ele. Nem todos os interessados são versados o bastante na história do protestantismo anglo-saxão seiscentista ou já passaram por outras obras concernentes ao assunto para que o título fosse intuitivo.
  2. Estou em pleno acordo com a diferenciação dos termos para nos referirmos aos batistas do século XVII e do século XXI. Por isso defendi a manutenção do termo Batistas Reformados hoje, embora eu defenda, ainda, o termo Batistas Particulares para o século XVII.
  3. “I don’t, personally, I don’t really want to hold step for step with the early modern people with everything, that was a very different context”. Amém! Estamos sempre negociando com a tradição, como diz Bingham. A tradição deve ser uma lâmpada, mas ela não é, e não pode ser, uma tirana.

 

.: Hercules Collins na prisão e a defesa da Separação :.

Em 1684, Hercules Collins, preso em Newgate, escreve uma carta contendo reflexões sobre a igreja batizada, o rebanho de Cristo. Dentre várias passagens inspiradoras, Collins relembra às igrejas de sua separação da Igreja da Inglaterra, alertando para a importância de continuar defendendo a emancipação das igrejas batistas em relação à igreja nacional.

Ó! Agarrai-vos ao que tendes; pois ou tivestes, para vossa Separação em primeiro lugar, boa Razão ou nenhuma; se nenhuma,  se apenas depositastes vossa Fé na conta de outros homens, então descobristes um zelo sem conhecimento e Afecção sem Discernimento, e muita Tolice em operar uma Separação sem boas razões nas Escrituras; Mas, se vós tivestes boa Razão para a Separação, e se foi feita por um Juízo bem informado, então a Razão é boa ainda, e então continua [sendo] um dever manter Zelosamente o que Desposastes, e “eles voltarão a ti, mas tu não passarás para o lado deles” [Jeremias 15:19] […]

Voice from the Prison, p.10

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COLLINS, Hercules. Voice from the Prison, or Meditations on Revelation III.XI: tending to the establishment of Gods Little Flock, in An hour of Temptation. Londres, 1684.

Andrew Ritor e a natureza espúria da Igreja da Inglaterra

Enquanto pouco se pode saber sobre a vida de Ritor, sua teologia é ilustrativa do pensamento aliancista, sacramental e eclesiológico dos Batistas Particulares.

Samuel Renihan, From Shadow to Substance, p.80.

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Andrew Ritor, essa figura abantesma, é um de meus mais diletos autores entre os Batistas Particulares, em que pese sua linguagem idiossincrática. Juntamente com Christopher Blackwood, ele demonstra uma argúcia historiográfica ímpar, uma sensibilidade histórica singular e uma aplicação incomum no uso das referências. Em sua obra A Treatise of the Vanity of Childish Baptisme, temos uma das primeiras formulações de um aliancismo distintivamente batista. Meu interesse, entretanto, está em seu subtítulo: onde a deficiência do Batismo da Igreja da Inglaterra é considerada em cinco particulares. Como parte de um projeto muito maior, pretendo me debruçar nos próximos artigos sobre a relação entre os Batistas Particulares e a Igreja da Inglaterra. Vejamos o que Ritor tem a nos dizer sobre isso. Continuar lendo

the many-headed monster

the history of 'the unruly sort of clowns' and other early modern peculiarities

The Virtue Blog

Blogging about the good life. Host of podcast, Sacred and Profane Love.

Pactualista

Subscrevendo a Confissão de Fé Batista de 1689

Crawford Gribben

on history, culture and religion

Queens' Old Library Blog

Rare Books and Manuscripts at Queens' College - University of Cambridge, UK

Petty France

Ressourcing Baptistic Congregationalist and Particular Baptist History

Reformed Baptist Academic Press

Uma imersão em Patrística Batista

Contrast

The light shines in the darkness, and the darkness has not overcome it

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Training Ministers to Preach the Gospel (2 Timothy 2:2)

HangarTeológico

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