O Catabatismo e a desqualificação dos imersionistas

A propaganda religiosa via flauteio sempre foi prática comum, mesmo entre os homens mais pios. Os Batistas e Anabatistas foram, como se sabe, pára-raios do escárnio reformado durante pelo menos um século. O trecho a seguir é um excerto da obra de William Whitsitt, A Question in Baptist History, e sugere uma forma de ataque frequentemente ignorada pelos historiadores.

Costumava-se dizer que a palavra Katabatista [sic], tão frequentemente aplicada aos Anabatistas por seus oponentes durante o período da Reforma, continha prova indisputável de que eles eram imersionistas. A preposição kata, em seu uso primário ou local, significa baixo, e assim, argumentava-se, um Katabatista deve ter sido alguém que batizou para baixo, isto é, imergindo. Mas assim como ana, significando primariamente cima, veio a ser usado no sentido de novamente, assim também kata, em diversos termos técnicos, significa contra, e o Prof. Scheffer mostrou plenamente que no uso de autores contemporâneos, este era o significado na palavra aqui considerada, e que Zwingli e outros, ao designá-los Katabatistas, queriam dizer apenas que eles eram “contra” o batismo comumente aceito. Assim, as mesmas pessoas eram chamadas Anabatistas, ou Rebatizadores, porque eles batizavam sob profissão de fé aqueles que haviam sido cristianizados na infância,¹ e Katabatistas, ou oponentes do batismo infantil. [Entretanto,] enquanto a maior parte dos crentes Anabatistas praticavam afusão ou aspersão para batizar, havia algumas exceções a favor da imersão.

(A Question, pp. 37-38; sublinhado: itálico original)

¹ A expressão “cristianizados” era comumente usada, em virtude de seu caráter iniciático, como sinônimo de “batizado”. “Infância”, aqui, é uma referência a recém-nascidos.

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Plantação das igrejas batistas na Irlanda e peroração de uma carta aos batistas londrinos

Ilhas são sempre um problema. A Irlanda, como se sabe, fica em uma dessas. Desde o século XII, normandos procuraram assegurar algum domínio sobre a Irlanda, e até o século XVII, com altos e baixos, houve uma relativa influência ou poderio real por parte dos britânicos sobre a ilha. Henrique VIII arrogou para si o título de “Rei da Irlanda” e buscou uma centralização de poder direto, um processo que levaria a uma guerra sangrenta durante o século XVII, quando Oliver Cromwell tornara-se Lorde Protetor da Inglaterra. A prática comum, em casos de rebelião na Irlanda, era o confisco de terras e o assentamento de colonos fieis ao monarca inglês.

Mas o que tudo isso tem a ver com os batistas? Segundo W. T. Whitley, em um desses reassentamentos, os batistas tiveram papel proeminente por meio do exército britânico:

A política regular no que concerne aos “rebeldes”, na Irlanda, contra reis Ingleses, Galeses e Escoceses, era confiscar a terra dos rebeldes e assentar novos colonos em seu lugar. Um dos mais amplos assentamentos se deu em 1652, sob autoridade de um Ato do rei e do parlamento de 1642, um dos últimos com os quais Carlos I concordou [antes de ser decapitado]. Na execução de suas determinações, os Batistas tiveram uma parte inesperada e tamanha que merece duplamente a nossa atenção.

[…]

O exército abundava de Batistas, tanto de fileira como de coluna. Entre os capitães, podem ser mencionados Baker, Bolton, Doyley, Draper, Heydon, Holcroft, Peter Rowe, Stopford e Wade. Entre os majores estavam Thomas Adams, Thomas Davis, William Moore, John Reade e Brian Smith. Havia ao menos três tenente-coroneis, Robert Doyley de Dalwood, em Devon, Thomas Throgmorton, William Walker. Os coroneis incluíam Daniel Axtell, Robert Barrow, Thomas Cooper, Richard Lawrence, William Leight, William Moore, John Nelson, Jerome Sankey. Havia também o Major-general Desborough, de Fenstanton, Batedor-mestre Henry Jones, o instrutor-mestre de cavalaria John Vernon e seu amigo do peito, Ajudante-geral William Allen. No lado civil do exército estavam o armazenador-chefe Clarke, Tesoureiro Richard Deane, Auditor-geral Edward Roberts, Advogado-geral Philip Carteret. Muito possivelmente, um exame cuidadoso das listas de inspeção poderiam revelar mais, mas esta lista é o bastante para mostrar que neste exército soberbo, que tinha tropas irmãs na Escócia e Inglaterra, havia um vasto número de Batistas muito influentes que haviam passado despercebidos do hábito de escrita das histórias eclesiásticas, como se somente ministros contassem.

The Plantation, pp. 276-277.

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.: Novo texto em Espanhol :. GEB, PB, OPB? Dr. R. Scott Clark, (re) intérprete del movimiento y de la teología bautista.

Após a tradução feita por Stuart Villalobos Tapahuasco da breve resposta que ofereci a Timothy LeCroy, um novo texto agora foi disponibilizado em língua espanhola, pelo que sou extremamente grato. Trata-se do artigo GEB, PB, OPB? Dr. R. Scott Clark, (re)intérprete do movimento e da teologia batista.

Você pode acessar a tradução aqui.

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John Tombes: Biografia e Breve Catecismo Sobre Batismo (I)

Há um episódio não contado da história da Assembleia de Westminster, em particular, e do Puritanismo, em geral. É sobre um acadêmico e pastor Puritano chamado John Tombes.

Michael T. Renihan, The Antipaedobaptism of John Tombes, p. 127.

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Nem sempre foi fácil identificar um batista. No século XVII, a dinâmica religiosa frequentemente desafia nossas taxonomias. Comumente se afirma que, durante o século XVII, havia dois grupos distintos de Batistas: os Gerais, que desposavam uma teologia arminiana, e os Particulares, que abraçavam uma soteriologia calvinista. Mas a história é mais complexa que isso, como nos lembra Robert Torbet:

Havia quatro grupos de Batistas na Inglaterra durante o século XVII: os Batistas Gerais, com sua ênfase Arminiana na teologia, os Batistas Particulares, que defendiam um Calvinismo estrito, os Batistas do Sétimo Dia, que eram recrutados amplamente dos homens desapontados com o [movimento] da Quinta Monarquia, e uma seção cruzada de Batistas Gerais e Particulares que confraternizavam com os Independentes (Congregacionais pedobatistas) e mantinham uma elevada vida social e cultura.

A History, p. 54.

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O “Manuscrito Kiffin” (MS K)

Este documento erige a história dos primeiros Batistas Particulares de Londres, de 1633 à publicação da Confissão das Sete Igrejas, em 1644. Foram aqueles que lideraram esse grupo de igrejas, e Kiffin entre eles, que foram responsáveis por um programa nacional de evangelismo, plantação de igreja e desenvolvimento de associações durante o período dos 1640 tardios e 1650.

B. R. White, Who Really Wrote the “Kiffin Manuscript”?, p. 8.

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O assim chamado “Manuscrito Kiffin”, doravante MS K, é um dos documentos conhecidos mais importantes para o estudo histórico das origens batistas a partir da tese separatista-puritana. Apesar de todas as suas limitações, é um documento que registra o advento da prática imersionista entre os batistas e o surgimento daquelas que seriam, mais tarde, chamadas de Igrejas Batistas Particulares. Pretendo oferecer um breve histórico desse documento e, ao final, uma tradução do mesmo para a língua portuguesa.

A menção inaugural do manuscrito se deu no The History of the English Baptists, de Thomas Crosby. Há muitos problemas envolvidos na citação elaborada por Crosby do suposto manuscrito, mas isso merece uma atenção especial em outro momento. Por ora, eis a certidão de nascimento do manuscrito nos livros de história batista:

Isso está de acordo com um relato dado sobre a questão em um manuscrito antigo, que diz-se ter sido escrito pelo Sr. William Kiffin, que viveu naqueles tempos e era um líder entre aqueles daquela inclinação.

English Baptists, vol. 1, p. 101.

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Foi John Milton um Batista?

Nor after ressurrection shall he stay
Longer on earth than certain times to appear
To his disciples, men who in his life
Still followed him; to them shall leave in charge
To teach all nations what of him they learned
And his salvation, them who shall believe
Baptizing in the profluent stream, the sign
Of washing them from guilt of sin to life
Pure, and in mind prepared, if so befall,
For death, like that which the redeemer died.

*

Depois de ressurgir não ficará
Na terra mais que um tempo p’ra surgir
Aos discípulos, homens que o seguiram
Em vida; e uma grande comissão
Lhes dará, de ensinarem às nações
A sua salvação. E quem crer nele
Batizarão em cursos de água, símbolo
De pecados lavador, p’ra uma vida
Pura, e preparado no seu espírito
P’ra morrer a morte do redentor.

 

John Milton, Paradise Lost, Livro XII, vv. 436-445.

 

John Milton (1608-1674), como se sabe, foi um dos maiores poetas de língua inglesa do século XVII, autor do célebre épico Paraíso Perdido. Assim como John Bunyan, Milton foi e ainda é envolto em polêmicas e incertezas religiosas. Dois grandes expoentes literários, duas grandes incógnitas teológicas. Christopher Hill, consagrado historiador do século XVII, é da opinião de que

Milton e Bunyan me parecem ser, respectivamente, o maior poeta e o maior prosador da Inglaterra setecentista, embora Milton também tenha sido um grande escritor de prosa e os versos de Bunyan, especialmente seus versos satíricos, são melhores do que geralmente se reconhece.

The English Bible, p. 371.

W. T. Whitley, no apêndice de sua obra A History of British Baptists, referenciado como “Nota C”, intitula a seguinte pergunta: “EM QUE SENTIDO ERA JOHN MILTON UM BATISTA?”. O tópico surge, no livro de Whitley, um tanto fora de curso, com um tempero quase de curiosidade, e por isso mesmo foi lançado nos apêndices. Talvez a questão não ultrapasse a barreira do simples diletantismo, mas não deixa de ser, por isso mesmo, instigante.

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Uma resposta sucinta a Timothy LeCroy

É comumente admitido que havia essencialmente dois pontos de vista sobre o batismo na Reforma: aquela dos Reformadores, que era o batismo infantil; e aquela dos Anabatistas sectários, que era o batismo de adultos. Mas um exame mais detalhado revela que o pensamento dos próprios Pedobatistas, já do início da Reforma, é também dividido por uma diferença de opinião que vai bem mais fundo do que a questão se bebês devem ou não ser batizados.

Paul K. Jewett, Infant Baptism & the Covenant of Grace, p. 78.

Críticas preguiçosas merecem respostas sucintas. E duras. É o caso da crítica histórico-teológica ao credobatismo proferida recentemente por Timothy LeCroy, no Theopolis Institute. Ao longo de meus estudos, vi um número muito considerável de críticas bem elaboradas e refinadas por parte dos pedobatistas. Não é o caso aqui. Mas cumpre dizer, logo de início, que respeito a teologia pedobatista e a considero válida (embora não verdadeira). Cabe o diálogo. O que não é tolerável é que o debate seja capitaneado por homens que distorcem vulgarmente os dados históricos e criam espantalhos de seus interlocutores.

Como se sabe, Peter Leithart é fundador e patrono do Theopolis Institute. Leithart é uma dessas mentes brilhantes, mas dadas a excessos indigestos. Leithart acumula diversos insights histórico-teológicos, mas pisa fora das quadras ortodoxas ao esgrimar sua teologia da aliança, recentemente conhecida como Federal Vision.  É espantoso, dada sua erudição, que textos de calibre delgado como este, de Timothy LeCroy, ganhem espaço em sua página.

Copio e traduzo em vermelho, abaixo, os trechos que pasmam por sua imprecisão, erro ou má fé.

[…]

Onde não há uma forte lógica bíblica, ou, onde fortes defesas poderiam ser feitas de ambos os lados, o precedente da tradição da igreja deveria ter peso na tomada da decisão. 

Tal é o caso com o batismo infantil. Ambos credobatistas e pedobatistas apresentam argumentos bíblicos de que estão plenamente convencidos. Assim, a tradição da igreja é frequentemente trazida à discussão para emprestar gravidade ao apoio de um lado ou outro. 

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the history of 'the unruly sort of clowns' and other early modern peculiarities

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