O Catabatismo e a desqualificação dos imersionistas

A propaganda religiosa via flauteio sempre foi prática comum, mesmo entre os homens mais pios. Os Batistas e Anabatistas foram, como se sabe, pára-raios do escárnio reformado durante pelo menos um século. O trecho a seguir é um excerto da obra de William Whitsitt, A Question in Baptist History, e sugere uma forma de ataque frequentemente ignorada pelos historiadores.

Costumava-se dizer que a palavra Katabatista [sic], tão frequentemente aplicada aos Anabatistas por seus oponentes durante o período da Reforma, continha prova indisputável de que eles eram imersionistas. A preposição kata, em seu uso primário ou local, significa baixo, e assim, argumentava-se, um Katabatista deve ter sido alguém que batizou para baixo, isto é, imergindo. Mas assim como ana, significando primariamente cima, veio a ser usado no sentido de novamente, assim também kata, em diversos termos técnicos, significa contra, e o Prof. Scheffer mostrou plenamente que no uso de autores contemporâneos, este era o significado na palavra aqui considerada, e que Zwingli e outros, ao designá-los Katabatistas, queriam dizer apenas que eles eram “contra” o batismo comumente aceito. Assim, as mesmas pessoas eram chamadas Anabatistas, ou Rebatizadores, porque eles batizavam sob profissão de fé aqueles que haviam sido cristianizados na infância,¹ e Katabatistas, ou oponentes do batismo infantil. [Entretanto,] enquanto a maior parte dos crentes Anabatistas praticavam afusão ou aspersão para batizar, havia algumas exceções a favor da imersão.

(A Question, pp. 37-38; sublinhado: itálico original)

¹ A expressão “cristianizados” era comumente usada, em virtude de seu caráter iniciático, como sinônimo de “batizado”. “Infância”, aqui, é uma referência a recém-nascidos.

Continuar lendo

Foi John Milton um Batista?

Nor after ressurrection shall he stay
Longer on earth than certain times to appear
To his disciples, men who in his life
Still followed him; to them shall leave in charge
To teach all nations what of him they learned
And his salvation, them who shall believe
Baptizing in the profluent stream, the sign
Of washing them from guilt of sin to life
Pure, and in mind prepared, if so befall,
For death, like that which the redeemer died.

*

Depois de ressurgir não ficará
Na terra mais que um tempo p’ra surgir
Aos discípulos, homens que o seguiram
Em vida; e uma grande comissão
Lhes dará, de ensinarem às nações
A sua salvação. E quem crer nele
Batizarão em cursos de água, símbolo
De pecados lavador, p’ra uma vida
Pura, e preparado no seu espírito
P’ra morrer a morte do redentor.

 

John Milton, Paradise Lost, Livro XII, vv. 436-445.

 

John Milton (1608-1674), como se sabe, foi um dos maiores poetas de língua inglesa do século XVII, autor do célebre épico Paraíso Perdido. Assim como John Bunyan, Milton foi e ainda é envolto em polêmicas e incertezas religiosas. Dois grandes expoentes literários, duas grandes incógnitas teológicas. Christopher Hill, consagrado historiador do século XVII, é da opinião de que

Milton e Bunyan me parecem ser, respectivamente, o maior poeta e o maior prosador da Inglaterra setecentista, embora Milton também tenha sido um grande escritor de prosa e os versos de Bunyan, especialmente seus versos satíricos, são melhores do que geralmente se reconhece.

The English Bible, p. 371.

W. T. Whitley, no apêndice de sua obra A History of British Baptists, referenciado como “Nota C”, intitula a seguinte pergunta: “EM QUE SENTIDO ERA JOHN MILTON UM BATISTA?”. O tópico surge, no livro de Whitley, um tanto fora de curso, com um tempero quase de curiosidade, e por isso mesmo foi lançado nos apêndices. Talvez a questão não ultrapasse a barreira do simples diletantismo, mas não deixa de ser, por isso mesmo, instigante.

Continuar lendo

Uma carta das igrejas Menonitas às igrejas Batistas londrinas

Em meu último artigo, analisei a relação entre seis igrejas batistas londrinas e as igrejas Menonitas Waterlanders da Holanda. Encontrei e traduzi a última carta enviada pelos holandeses, liderados por Hans de Ries, às igrejas inglesas. Fica excluída, aqui, como destinatária, a igreja de Elias Tookey, que secessionou da igreja de Murton. A missiva é destinada às cinco igrejas “do tipo Helwys e Murton”, como eles mesmos se identificaram.

*

Continuar lendo

A relação entre as primeiras igrejas Batistas e as igrejas Menonitas da Holanda

Agora, entre esta igreja em Amsterdã e as Cinco Igrejas na Inglaterra, havia reais diferenças de opinião e prática. Os Holandeses nunca adotaram o comunismo dos Anabatistas Moravianos, mas eles se posicionaram firmemente contra prestar juramentos, contra aceitar cargos de magistratura, contra lutar. E os Ingleses estavam preparados para fazer qualquer dessas coisas. Daí que os dois grupos de pessoas, que a essa altura estavam divididos por nenhuma outra questão de princípio, tenham se mantido para sempre separados.

W. T. Whitley, A History of British Baptists, p. 55.

Seguindo no propósito da investigação das relações entre batistas e anabatistas, é oportuno discorrer sobre as relações travadas entre algumas das primeiras igrejas Batistas na Inglaterra, todas elas pertencentes ao grupo que mais tarde seria chamado de “Batistas Gerais”, e as igrejas Menonitas holandesas, descendentes diretas do movimento anabatista e assim concebidas amplamente pelos ingleses do período. Em outra ocasião, debruçar-me-ei sobre as igrejas inglesas “da Separação” que se firmaram na Holanda. Por ora, acompanharemos apenas uma delas, a de John Smyth. Vejamos, em primeiro lugar, como se comporta, no que concerne à relação com os Anabatistas, a igreja plantada por Smyth na Holanda, juntamente com a porção dos regressos sob a direção de Thomas Helwys e, por fim, a relação de seis igrejas inglesas com os Menonitas.

A igreja Smyth-Helwys

A. C. Underwood disserta da seguinte forma acerca da primeira igreja batista inglesa, inicialmente em território holandês e posteriormente repatriada:

Continuar lendo

O problema da relação entre Anabatistas e Batistas: Glen H. Stassen vs James M. Renihan

A relação entre os primeiros Batistas Ingleses e os Anabatistas Continentais (ou Menonitas) foi descrita por Ernest A. Payne, historiador da igreja Britânico, como “um problema histórico intrincado e espinhoso”.

Robert G. Torbet, A History of the Baptists, p. 23.

O problema da influência anabatista sobre o movimento batista tem sido discutido há – pelo menos – 400 anos. Mais recentemente, com a dilatação visível do movimento batista calvinista no Brasil, a polêmica frequentemente vai parar nos debates, quase sempre nada acadêmicos, das redes sociais. As discussões em torno do tema, quando conduzidas mais por apologistas do que por estudiosos, assume contornos apaixonados de afirmações do que se deseja acreditar e do que se espera ser verdadeiro, e não realmente de como as coisas são. Este é um primeiro artigo sobre um tema multifacetado e complexo, mas espero iniciar aqui um exame e um diálogo mais cuidadosos e mais rigorosos acerca da questão.

Em 1962, Glen H. Stassen prestou sua contribuição ao debate sobre a relação entre anabatistas e batistas por meio de um artigo intitulado Anabaptist Influence in the Origin of the Particular Baptists. O texto se divide em cinco partes e oferece inúmeras contribuições relevantes, mas aqui nos cabe tratar apenas da metade final do artigo, na qual Stassen procura compreender a fonte teológica da doutrina sobre o batismo que os Batistas Particulares desposaram a partir da década de 1640 e que se expressou de maneira mais clara na Primeira Confissão de Fé Londrina, de 1644/46.

Stassen afirma haver dois elementos principais na doutrina dos Batistas Particulares com relação ao batismo: a simbologia da morte, sepultamento e ressurreição de Cristo e os elementos da profissão de fé e discipulado.

Continuar lendo

The Virtue Blog

Blogging about the good life. Host of podcast, Sacred and Profane Love.

Pactualista

Subscrevendo a Confissão de Fé Batista de 1689

Crawford Gribben

On Puritan and evangelical history and writing

Queens' Old Library Blog

Rare Books and Manuscripts at Queens' College - University of Cambridge, UK

Petty France

Reviving the voices of the Particular Baptists, and other interesting bits and pieces of 17th-century literature.

Reformed Baptist Academic Press

Uma imersão em Patrística Batista

Contrast

The light shines in the darkness, and the darkness has not overcome it

IRBS Theological Seminary

Training Ministers to Preach the Gospel (2 Timothy 2:2)

HangarTeológico

Uma imersão em Patrística Batista

The Confessing Baptist

Uma imersão em Patrística Batista

Reformed Libertarian

Reformed Theology | Libertarian Polity

Reformed Baptist Fellowship

Reformational, Calvinistic, Puritan, Covenantal, Baptist

Reformed Baptist Blog

Uma imersão em Patrística Batista