“Crentes não são Abraãos”: John Spilsbery e Nehemiah Coxe sobre o problema dos “filhos da aliança”.

O argumento, em uma casca de noz, é simplesmente este: Deus estabeleceu sua igreja nos tempos de Abraão e colocou as crianças nela. Elas devem permanecer ali até ele as tirar.

B. B. Warfield, The Polemics of Infant Baptism, in: Studies in Theology, vol. 9, p. 408.

*

Os “Filhos da Aliança”

O entendimento pedobatista acerca do batismo de filhos de crentes passa, necessariamente, pela defesa do conceito de “filhos da aliança”. O conceito carrega a ideia de que os filhos de cristãos participariam, de alguma forma, em virtude da relação pactual de seus pais, da nova administração da aliança da graça, tal como os filhos dos hebreus participavam da velha administração da aliança da graça em virtude da relação pactual de seus pais. Calvino assim o coloca, por exemplo, entre afirmações e indagações:

Se a razão há de ser ouvida, se verá indubitavelmente que o batismo é apropriadamente administrado aos bebês como algo devido a eles. O Senhor não outorgou a circuncisão sobre eles, antigamente, sem fazer deles partícipes de todas as coisas significadas pela circuncisão. Ele teria iludido seu povo com simples impostura, se os tivesse aquietado com símbolos falaciosos: essa ideia mesma é escandalosa. Ele distintamente declara que a circuncisão do bebê lhe será no lugar de um selo da promessa da aliança. Mas se a aliança permanece firme e fixa, ela não é menos aplicável aos filhos de Cristãos no tempo presente do que aos filhos de Judeus debaixo do Antigo Testamento.

Institutas, IV, 16, 5.

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Richard Younge e as origens do batismo imersivo: Um poema anti-quaker e anti-batista.

Em janeiro de 1912, Champlin Burrage, renomado historiador dos movimentos religiosos dissidentes na Inglaterra do século XVII, escreveu o importante artigo The Restoration of Immersion by the English Anabaptists and Baptists (1640-1700). Ali, Burrage chamava atenção para um curioso documento que poderia lançar luzes sobre a origem do batismo imersivo na Inglaterra. Trata-se de um poema de Richard Younge, publicado então anonimamente, em 1659, intitulado Anti-Quakerism, or, A Character of the Quakers Spirit, from its Original and first cause. 
anti-quakerism2
O subtítulo quilométrico, como de costume, serve como sinopse e carta de intenção:
*
Escrito por um cavalheiro que esteve por treze anos entre os Separatistas para fazer Observações, e agora retornou para casa com a plena intenção de expor todo o Mistério da iniquidade, ao desvelar a Prostituta, para que os homens não mais possam beber do vinho de suas Fornicações; ele jurou o celibato e dedicou-se plenamente aos exercícios da mente. E aqui ele descreveu o espírito do Quakerismo. 
1. Ser um Puritano estrito.    2. Um Anabatista.    3. Um Seeker.    4. Um Ranter.     5. Um Quaker, e, por que não, todas as coisas, e nada. Pelo qual caráter, todo Homem pode, em alguma medida, ver o engano de sua própria imaginação e ser cuidadoso, e devidamente atento consigo mesmo. 
Anti-Quakerism, p. única

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.:Indicação:. Baptism Prior to the Reformation (James Renihan)

Além de sua aula sobre as origens históricas dos batistas particulares, quero sugerir, também de autoria do Dr. Renihan, Baptism Prior to the Reformation. Ele apresenta, en passant, as três principais teorias sobre a origem dos batistas atuais e procura fazer um apanhado do credobatismo nos primeiros séculos da era cristã e discutir os problemas do landmarkismo e do catabatismo.

Na primeira parte da aula, Dr. Renihan segue de perto o livro Baptism in the Early Church, de Hendrick F. Stander e Johannes P. Louw. Eu indicaria, como complementação, a Part One: A Consideration of the Historical Question do livro Infant Baptism & the Covenant of Grace, de Paul K. Jewett, que faz um belo trabalho regressivo para mostrar as lacunas de uma visão histórica pedobatista e dialoga consistentemente com as obras de Joachim Jeremias e Kurt Aland, mencionadas por Renihan. Há também uma menção à obra de Everett Ferguson (que Renihan confunde por Everett Harrison) que é o mais profundo e vasto estudo até hoje realizado sobre o batismo na Antiguidade e Antiguidade Tardia.

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John Tombes: Biografia e Breve Catecismo Sobre Batismo (III)

No primeiro artigo da série sobre John Tombes, acompanhamo-no de seu nascimento, em Bewdley, ao seu retorno à terra natal. No segundo artigo, discutimos a duplicidade eclesiástica presente em figuras importantes do século XVII, como Benjamin Cox e John Tombes, que, ao voltar à Bewdley, pastoreou uma igreja separatista mesmo atuando, ainda, na igreja oficial. Agora, veremos Tombes buscando a estabilidade financeira e se engajando em uma importante controvérsia com Richard Baxter, tema que será melhor explorado no artigo final desta série.

 

O Batista de Bewdley

A. J. Klaiber oferece um bom resumo da trajetória de Tombes até aqui:

[…]. A igreja de Bewdley, entretanto, deveu sua fundação a um nativo da cidade, um certo John Tombes, filho de pais pobres que, após passar pela escola local de gramática, ingressou no Magdalen College, Oxford, aos quinze anos. Aos vinte e um, ele foi escolhido pregador catequético público. Ele se tornou vigário de Leominster, mas fugiu para Bristol quando da eclosão da Guerra Civil. Depois da tomada de Bristol pelos Realistas, ele fugiu para Londres e foi indicado ministro em Fenchurch. Aqui, ele se recusou a permitir o batismo de bebês em sua igreja e foi, consequentemente, privado de seu estipêndio. Sob promessa de não introduzir a controvérsia batismal no púlpito, ele foi feito pregador de Temple, mas em 1645 foi demitido por publicar seu primeiro tratado sobre batismo infantil. Em 1646 ele retornou a Bewdley e foi escolhido ministro da capela de St. Anne, uma chapel of ease¹ de Ribbesford, onde ele não seria obrigado a cristianizar.² Aqui, ele publicou seu Apology for the Two Treatises on Infant Baptism, no qual ele escreve que “precisa dizer que igrejas que não tem nenhum outro Batismo senão o de Infantes, não são igrejas verdadeiras, nem seus membros, membros da igreja.” Ele então fundou uma igreja Batista separatista na cidade, contando com vinte membros, enquanto continuou a exercer a curadoria da capela de St. Anne. Todas as igrejas fundadas por Tombes foram, acredita-se, do tipo de comunhão aberta.

Baptists at Bewdley, pp. 116-117.

¹ Vf. definição de “chapel of ease” na n.5 do primeiro artigo.

² i. e., batizar.

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John Tombes: Biografia e Breve Catecismo Sobre Batismo (II)

Considerando que o próprio termo “batista” não tem uma origem ou uso tão natural quanto se poderia supor, é também de se esperar que a identificação conceitual de um batista, i. e., o conjunto de ideias e práticas que definem um batista, seja igualmente labiríntica. John Tombes foi, talvez, o melhor exemplo disso. As narrativas tradicionais sobre o surgimento dos Batistas envolvem, sempre, a contextualização dos movimentos separatistas na Inglaterra. Mas será que o ser batista exigia, como força de necessidade, abraçar o separatismo? Tombes nunca deixou os quadros oficiais da Igreja Anglicana, embora atuasse em uma frente complementar, conduzindo uma congregação segundo doutrinas essencialmente batistas.

A narrativa que associa o separatismo ao movimento batista, para além das evidentes conexões históricas, é sugerida pelo próprio corpo doutrinário produzido pelas primeiras gerações de batistas. Tanto a 1CFL (Capítulo XXXVI) quanto a 2CFL (Capítulo XXVI) apresentam, como artigo de fé, uma visão eclesiológica congregacional, o que leva a crer que ser batista implica, necessariamente, ser congregacional. Não exatamente. Não no século XVII, pelo menos. Tombes é geralmente retratado como figura anômala, por bons motivos, mas é útil perceber que Benjamin Cox, Batista Particular de enorme importância, teve uma trajetória parecida com a de Tombes.

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O Catabatismo e a desqualificação dos imersionistas

A propaganda religiosa via flauteio sempre foi prática comum, mesmo entre os homens mais pios. Os Batistas e Anabatistas foram, como se sabe, pára-raios do escárnio reformado durante pelo menos um século. O trecho a seguir é um excerto da obra de William Whitsitt, A Question in Baptist History, e sugere uma forma de ataque frequentemente ignorada pelos historiadores.

Costumava-se dizer que a palavra Katabatista [sic], tão frequentemente aplicada aos Anabatistas por seus oponentes durante o período da Reforma, continha prova indisputável de que eles eram imersionistas. A preposição kata, em seu uso primário ou local, significa baixo, e assim, argumentava-se, um Katabatista deve ter sido alguém que batizou para baixo, isto é, imergindo. Mas assim como ana, significando primariamente cima, veio a ser usado no sentido de novamente, assim também kata, em diversos termos técnicos, significa contra, e o Prof. Scheffer mostrou plenamente que no uso de autores contemporâneos, este era o significado na palavra aqui considerada, e que Zwingli e outros, ao designá-los Katabatistas, queriam dizer apenas que eles eram “contra” o batismo comumente aceito. Assim, as mesmas pessoas eram chamadas Anabatistas, ou Rebatizadores, porque eles batizavam sob profissão de fé aqueles que haviam sido cristianizados na infância,¹ e Katabatistas, ou oponentes do batismo infantil. [Entretanto,] enquanto a maior parte dos crentes Anabatistas praticavam afusão ou aspersão para batizar, havia algumas exceções a favor da imersão.

(A Question, pp. 37-38; sublinhado: itálico original)

¹ A expressão “cristianizados” era comumente usada, em virtude de seu caráter iniciático, como sinônimo de “batizado”. “Infância”, aqui, é uma referência a recém-nascidos.

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John Tombes: Biografia e Breve Catecismo Sobre Batismo (I)

Há um episódio não contado da história da Assembleia de Westminster, em particular, e do Puritanismo, em geral. É sobre um acadêmico e pastor Puritano chamado John Tombes.

Michael T. Renihan, The Antipaedobaptism of John Tombes, p. 127.

*

Nem sempre foi fácil identificar um batista. No século XVII, a dinâmica religiosa frequentemente desafia nossas taxonomias. Comumente se afirma que, durante o século XVII, havia dois grupos distintos de Batistas: os Gerais, que desposavam uma teologia arminiana, e os Particulares, que abraçavam uma soteriologia calvinista. Mas a história é mais complexa que isso, como nos lembra Robert Torbet:

Havia quatro grupos de Batistas na Inglaterra durante o século XVII: os Batistas Gerais, com sua ênfase Arminiana na teologia, os Batistas Particulares, que defendiam um Calvinismo estrito, os Batistas do Sétimo Dia, que eram recrutados amplamente dos homens desapontados com o [movimento] da Quinta Monarquia, e uma seção cruzada de Batistas Gerais e Particulares que confraternizavam com os Independentes (Congregacionais pedobatistas) e mantinham uma elevada vida social e cultura.

A History, p. 54.

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