Matthew Bingham e a rebelião de Thomas Venner: Um problema acerca da “identidade batista” e a relação entre Batistas Gerais e Particulares

Nota: O presente artigo estava bem encaminhado antes que eu tivesse tomado conhecimento da leitura de Matthew Bingham, em Orthodox Radicals, acerca do documento aqui tratado. Ao me deparar com seus argumentos, entretanto, julguei oportuno reestruturar o texto para promover alguma interação com a obra.

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Matthew Bingham e a morte dos “Batistas”

Em seu mais recente livro, Orthodox Radicals, Matthew Bingham se põe a criticar amplamente os conceitos de “Batistas Particulares”, “Batistas Gerais” e, consequentemente, até mesmo de “Batistas”. Segundo ele, aqueles que hoje nós chamamos de Batistas “Gerais” ou “Particulares”, não se percebiam enquanto tais à época, isto é, eram desprovidos de uma autoconsciência de identidade “Batista”.

Quando historiadores rotulam inadequadamente grupos religiosos historicamente situados, eles “formulam presunções teleológicas sobre padrões de desenvolvimento, sanitarizando condições de desordem e incerteza e obscurecendo indicadores de caminhos não tomados”. Ao adotar, de forma muito casual, o esquema de Batistas Gerais e Particulares e, então, ler as evidências sob essa ótica, arriscamos não compreender os grupos religiosos reais aos quais esses rótulos se referem. Mais premente ainda, ao assumir, a priori, que os separatistas batistas que emergiram do círculo de Jessey se enquadravam confortavelmente sob o rótulo de “Batistas Particulares”, nós inapropriadamente os unimos aos ditos Batistas Gerais. Pois falar em Batistas Gerais e Particulares é assumir alguma espécia de identidade “Batista” abrangente que pode ser significativamente aplicada a ambos os grupos, mas os registros históricos não sustentam essa suposição.

Orthodox Radicals, p. 18.

Bingham defende, portanto, que não é possível falar em uma identidade “Batista” no século XVII. Os grupos chamados de Gerais e Particulares possuem diferenças de tal magnitude que impugnam qualquer tentativa de representá-los de forma conjunta. A rigor, Bingham entende que o próprio termo “Batista” deve ser dissociado desses grupos. Segundo ele, as raras instâncias de cooperação ou parceria entre os grupos considerados “batistas” podem ser negligenciadas justamente por serem raras e circunstanciais. Aqui, nos chama atenção o primeiro – e talvez mais substancial – exemplo da relação entre Gerais e Particulares que Bingham pretende descartar:

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.:Sansão contra as igrejas nacionais, ou Edward Barber e o Espírito da Reforma:.

Edward Barber foi um Batista Geral do século XVII que se tornou uma das vozes mais proeminentes da causa separatista-imersionista. Há quem defenda que tenha sido ele, e não os Batistas Particulares, que reintroduziu o batismo por imersão na Inglaterra. Barber se dedicou especialmente à causa da tolerância religiosa em relação aos separatistas. Mas em três ocasiões, a certa altura de seu tratado An answer to eight queries propounded by the House of Commons, to the Assembly called Divines, sitting at Westminster, Barber cita especificamente o processo da Reforma Protestante e reflete sobre o ideário da igreja nacional, da cobrança compulsória de dízimos e do batismo infantil, concluindo que esses elementos são contraditórios ao espírito e propósito da Reforma.

Portanto, essas Assembleias supremas não são Jure Divino, por vontade e apontamento de Jesus Cristo, mas são todas de Autoridade humana, desconhecidas pelas Escrituras, sendo contra a liberdade, que toda a Igreja de Cristo lhes deu, da qual elas devem desfrutar, nenhuma sendo anterior ou posterior a outra em seus privilégios ou prerrogativas, liberdade e liberalidade a qual todo protestante¹ e Aliançado² é jurado de sustentar e manter.

[…]

Sendo ferida esta besta, ergue-se outra besta da terra, a saber, a partir das invenções terrenas das assembleias, concílios e Sínodos Papais, Ap. 6.13.14. as Estrelas caindo do céu à terra, deixando elas aquelas gloriosas instituições de Cristo, a submersão de verdadeiros crentes, sob confissão de pecados e profissão de fé, assim como a contribuição voluntária dos Santos, ou, como Fox coloca, em seus atos e monumentos, as puras ofertas de Cristo, e [pelo contrário] trazendo para o batismo, ou melhor, para a aspersão de Crianças Naturais, e pelo pagamento de dízimos, erguendo assim Igrejas nacionais sem os quais jamais poderiam tê-lo feito, tampouco poderiam agora mantê-lo, contradizendo assim a regra do Apóstolo Cor. 1.4.6. em presumirem além do que está escrito; mas fossem esses pilares removidos, segundo nosso Protesto e Aliança, e a reforma estabelecida conforme a palavra de Deus (como se pretende), o Reino do Anticristo, como a casa dos Filisteus, cairá sobre suas cabeças, como aquela dos Filisteus, quando de Sansão, aquele tipo glorioso de Cristo, empurrando os 2. pilares sobre os quais a casa se mantinha.

[…]

[…] fingindo-se ministros de Cristos, mas não satisfeitos com sua ordenação, nem mantimento ou salários, obtendo, portanto, ordenanças, como o doutor Burgis³ &tc, e Leis Estatutárias do estado, embora alguns deles tivessem pouca necessidade, possuindo o bastante antes, o que causou maior violação da protestação e Aliança […].

An answer, pp. 11-13.

¹ No original, “protestor”.

² No original, “Covenanter”. O termo é inusitado para a literatura da época. O mais provável é que Barber esteja se referindo aos pactos eclesiásticos celebrados pelas igrejas e que, para muitos separatistas, marcam a instituição de fato de uma igreja. Assim, o “Covenanter” seria um membro de igreja separatista, no caso batista, que celebrou uma aliança em sua igreja local e com ela se comprometeu.

³ Provavelmente Cornelius Burgess, que fez parte do grupo presbiteriano de Edward Calamy, mas que tinha fortes tendências episcopais.

De forma interessante, Barber associa o ser “protestante” com o ser “aliançado”, ou seja, para ele, a verdadeira igreja da Reforma é aquela que se edifica voluntariamente por meio de um pacto. Isso significa que as igrejas nacionais, como a inglesa e a escocesa, e mesmo as igrejas da dita Reforma Magisterial de Lutero e Calvino, por exemplo, ficam aquém do verdadeiro propósito da Reforma “segundo as Escrituras”.

Outro elemento interessante que Barber também sinaliza é a relação entre igreja nacional, sustento estatal e batismo infantil. Sua lógica parece ser a de que a estrutura das igrejas nacionais depende do batismo infantil e do sustento estatal – os dois pilares, como chama – de sorte que o próprio propósito da “aspersão de crianças naturais” (um ácido eufemismo) e o financiamento estatal se tornam meios de sustentação da igreja, e não fins em si mesmos, estabelecidos por convicção doutrinária. São esses dois pilares que, segundo Barber, deveriam ser removidos para que a verdadeira Reforma “caia sobre suas cabeças”.

A pergunta que não quer calar: na metáfora de Barber, ocupariam os Batistas a figura de Sansão?

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BARBER, Edward. An answer to eight queries propounded by the House of Commons, to the Assembly called Divines, sitting at Westminster. Londres, 1648.

O “terremoto” da Luz Interior: Dois historiadores se debruçam sobre a relação entre Quakers e Batistas.

Existe um paradoxo na designação “quaker”. A confiar na autobiografia de George Fox, o primeiro a empregar esse nome à Sociedade dos Amigos da Verdade, ou dos Filhos da Luz, como eles mesmos se chamavam, teria sido Gervase Bennet, quando confrontou, na posição de juiz, as doutrinas de Fox. O emprego do termo teria sido quase lisonjeiro, já que Fox teria feito Bennet “tremer” (to quake) diante da Palavra do Senhor exposta pelo réu. Mas é evidente que a palavra poderia assumir outro significado, qual seja, o de “medrosos” ou “tremedores”, o que se alinhava confortavelmente, diga-se de passagem, ao espírito quietista dos quakers, que enfatizavam a espiritualidade interior.

Como os levelers, os diggers, os seekers, os ranters e os dippers, estes últimos referindo-se aos batistas, a nomenclatura de quakers foi fartamente empregada como caráter depreciativo na Inglaterra seiscentista. São geralmente alocados, portanto, na esfera do vasto rol de “seitas” germinadas durante esse período. Mas há um fenômeno de curiosidade especial para os batistas no que concerne aos quakers, o qual diz respeito aos inúmeros intercâmbios e convivências entre esses dois grupos.

Vejamos uma descrição interna dessa relação entre quakers e batistas e, em sequência, uma avaliação mais recente e pontual do fenômeno. A narrativa, aqui, é de Robert Barclay – não o famoso quaker escocês do século XVII, mas o não tão famoso quaker inglês do século XIX. Este dedicou-se, para além de sua própria espiritualidade, à tarefa da historiografia. Fez publicar, em 1877, sua obra The Inner Life of the Religious Societes of the Commonwelth: considered principally with reference to the influence of church organization on the spread of christianity. As notas de rodapé numeradas com algarismos romanos são notas originais do texto. Continuar lendo

Uma carta das igrejas Menonitas às igrejas Batistas londrinas

Em meu último artigo, analisei a relação entre seis igrejas batistas londrinas e as igrejas Menonitas Waterlanders da Holanda. Encontrei e traduzi a última carta enviada pelos holandeses, liderados por Hans de Ries, às igrejas inglesas. Fica excluída, aqui, como destinatária, a igreja de Elias Tookey, que secessionou da igreja de Murton. A missiva é destinada às cinco igrejas “do tipo Helwys e Murton”, como eles mesmos se identificaram.

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A relação entre as primeiras igrejas Batistas e as igrejas Menonitas da Holanda

Agora, entre esta igreja em Amsterdã e as Cinco Igrejas na Inglaterra, havia reais diferenças de opinião e prática. Os Holandeses nunca adotaram o comunismo dos Anabatistas Moravianos, mas eles se posicionaram firmemente contra prestar juramentos, contra aceitar cargos de magistratura, contra lutar. E os Ingleses estavam preparados para fazer qualquer dessas coisas. Daí que os dois grupos de pessoas, que a essa altura estavam divididos por nenhuma outra questão de princípio, tenham se mantido para sempre separados.

W. T. Whitley, A History of British Baptists, p. 55.

Seguindo no propósito da investigação das relações entre batistas e anabatistas, é oportuno discorrer sobre as relações travadas entre algumas das primeiras igrejas Batistas na Inglaterra, todas elas pertencentes ao grupo que mais tarde seria chamado de “Batistas Gerais”, e as igrejas Menonitas holandesas, descendentes diretas do movimento anabatista e assim concebidas amplamente pelos ingleses do período. Em outra ocasião, debruçar-me-ei sobre as igrejas inglesas “da Separação” que se firmaram na Holanda. Por ora, acompanharemos apenas uma delas, a de John Smyth. Vejamos, em primeiro lugar, como se comporta, no que concerne à relação com os Anabatistas, a igreja plantada por Smyth na Holanda, juntamente com a porção dos regressos sob a direção de Thomas Helwys e, por fim, a relação de seis igrejas inglesas com os Menonitas.

A igreja Smyth-Helwys

A. C. Underwood disserta da seguinte forma acerca da primeira igreja batista inglesa, inicialmente em território holandês e posteriormente repatriada:

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O problema da relação entre Anabatistas e Batistas: Glen H. Stassen vs James M. Renihan

A relação entre os primeiros Batistas Ingleses e os Anabatistas Continentais (ou Menonitas) foi descrita por Ernest A. Payne, historiador da igreja Britânico, como “um problema histórico intrincado e espinhoso”.

Robert G. Torbet, A History of the Baptists, p. 23.

O problema da influência anabatista sobre o movimento batista tem sido discutido há – pelo menos – 400 anos. Mais recentemente, com a dilatação visível do movimento batista calvinista no Brasil, a polêmica frequentemente vai parar nos debates, quase sempre nada acadêmicos, das redes sociais. As discussões em torno do tema, quando conduzidas mais por apologistas do que por estudiosos, assume contornos apaixonados de afirmações do que se deseja acreditar e do que se espera ser verdadeiro, e não realmente de como as coisas são. Este é um primeiro artigo sobre um tema multifacetado e complexo, mas espero iniciar aqui um exame e um diálogo mais cuidadosos e mais rigorosos acerca da questão.

Em 1962, Glen H. Stassen prestou sua contribuição ao debate sobre a relação entre anabatistas e batistas por meio de um artigo intitulado Anabaptist Influence in the Origin of the Particular Baptists. O texto se divide em cinco partes e oferece inúmeras contribuições relevantes, mas aqui nos cabe tratar apenas da metade final do artigo, na qual Stassen procura compreender a fonte teológica da doutrina sobre o batismo que os Batistas Particulares desposaram a partir da década de 1640 e que se expressou de maneira mais clara na Primeira Confissão de Fé Londrina, de 1644/46.

Stassen afirma haver dois elementos principais na doutrina dos Batistas Particulares com relação ao batismo: a simbologia da morte, sepultamento e ressurreição de Cristo e os elementos da profissão de fé e discipulado.

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