.:Indicação:. Matthew Bingham @ Regular Reformed Guys

Depois de alguns contratempos, o Regular Reformed Guys lançou seu podcast com a presença de Matthew Bingham como convidado. Sou um entusiasta do trabalho de Bingham, mas tenho algumas divergências consideráveis referente à sua obra Orthodox Radicals, que foi objeto da discussão do podcast. Decidi endereçar essas divergências em vias mais acadêmicas, o que significa que, provavelmente, isso ainda levará algum tempo. Para quem já leu seu livro, há pouco que o episódio possa acrescentar. Saliento apenas três pontos em sua fala:

  1. Finalmente Bingham ofereceu uma explicação verbalizada do título de seu livro (próximo aos 53 min.). Quando se intitula com um oximoro, literalmente, uma obra que pretende reinterpretar a história dos batistas, é de bom tom discorrer sobre ele. Nem todos os interessados são versados o bastante na história do protestantismo anglo-saxão seiscentista ou já passaram por outras obras concernentes ao assunto para que o título fosse intuitivo.
  2. Estou em pleno acordo com a diferenciação dos termos para nos referirmos aos batistas do século XVII e do século XXI. Por isso defendi a manutenção do termo Batistas Reformados hoje, embora eu defenda, ainda, o termo Batistas Particulares para o século XVII.
  3. “I don’t, personally, I don’t really want to hold step for step with the early modern people with everything, that was a very different context”. Amém! Estamos sempre negociando com a tradição, como diz Bingham. A tradição deve ser uma lâmpada, mas ela não é, e não pode ser, uma tirana.

 

.: Hercules Collins na prisão e a defesa da Separação :.

Em 1684, Hercules Collins, preso em Newgate, escreve uma carta contendo reflexões sobre a igreja batizada, o rebanho de Cristo. Dentre várias passagens inspiradoras, Collins relembra às igrejas de sua separação da Igreja da Inglaterra, alertando para a importância de continuar defendendo a emancipação das igrejas batistas em relação à igreja nacional.

Ó! Agarrai-vos ao que tendes; pois ou tivestes, para vossa Separação em primeiro lugar, boa Razão ou nenhuma; se nenhuma,  se apenas depositastes vossa Fé na conta de outros homens, então descobristes um zelo sem conhecimento e Afecção sem Discernimento, e muita Tolice em operar uma Separação sem boas razões nas Escrituras; Mas, se vós tivestes boa Razão para a Separação, e se foi feita por um Juízo bem informado, então a Razão é boa ainda, e então continua [sendo] um dever manter Zelosamente o que Desposastes, e “eles voltarão a ti, mas tu não passarás para o lado deles” [Jeremias 15:19] […]

Voice from the Prison, p.10

*

COLLINS, Hercules. Voice from the Prison, or Meditations on Revelation III.XI: tending to the establishment of Gods Little Flock, in An hour of Temptation. Londres, 1684.

Uma nota sobre os estudos batistas reformados

Samuel Renihan foi entrevistado recentemente pelo podcast Theology Driven. O tema foi, como seria de se esperar, os batistas do século XVII. Episódios de podcast como este estão por toda parte nos últimos anos.

https://www.podbean.com/ew/pb-yqn63-b9da7b

Eu mesmo já perdi a conta de quantas vezes escutei as mesmas perguntas e as mesmas respostas. Sem meias palavras, é frustrante. A impressão que se tem é que as duas únicas perguntas que hosts de podcasts se prestam a fazer aos Renihan são “de onde vêm os Batistas” e “existe relação entre eles e os Anabatistas?”. Diga-se de passagem, quem faz essas perguntas – e, eu apostaria, a maior parte de quem as escuta – já sabe a resposta.

Por que a insistência nesses pontos? Será que o universo Batista Reformado se resume a essa miséria de ideias? Será que não existe mais nada que possa ser explorado? Até quando vamos viver dessa terra arrasada de reflexões?

O que explica a persistência ad nauseam dessa questão? A resposta é muito simples e preocupante. Ela evidencia que o “público” Batista Reformado, isto é, os hosts de podcast, os teólogos de twitter e os controversistas de facebook não têm nenhum interesse real na tradição Batista Reformada, e mal se dão conta disso. Fato é que pouco lhes importa compreender e resgatar a plenitude e a essência das ideias, dos valores e das práticas dos batistas do século XVII. O que lhes importa mesmo é afirmar seu pedigree reformado. A luta toda, lamentavelmente, se reduz a comprovar aquilo que é menos relevante: que os batistas são provenientes da nobre estirpe dos Independentes. Sequências intermináveis de tweets são feitos todos os dias em defesa da veia reformada batista. Teses inteiras de PhD foram escritas, recentemente, com o único propósito de demonstrar o sangue azul dos batistas. Vaidades.

Não me entendam mal: os Renihan são responsáveis pelos mais relevantes trabalhos até hoje já elaborados e em elaboração sobre o que realmente importa: a tradição dos valores e práticas batistas. Eles não são o problema, são a solução. O problema é a geração, geralmente jovem, de “Batistas Reformados de jaula” que desejam apenas ver afirmada e legitimada sua identidade aristocrática.

Acontece que essas questões só podem despertar um interesse espumante naqueles que não têm problemas pastorais reais para enfrentar. Não é o caso dos Renihan, e por isso suas obras vão sempre muito além dos interesses superficiais dos militantes. Há inúmeras perguntas relevantes que podem ser feitas e que parecem, apenas parecem, ter respostas óbvias. Em que medida a igreja participa do processo disciplinar? O batismo é realmente necessário para a membresia? Quais são os modelos de evangelização missional? Como entender a ação social da igreja? Qual a extensão da influência das associações sobre as igrejas locais? Pressupor que suas respostas estejam dadas é um erro terrível, é cair na armadilha de imaginar que as respostas da tradição são aquelas que gostaríamos que fossem, ou que nos parecem mais provável que sejam. A melhor obra a abordar alguns desses problemas é Edification and Beauty, de James Renihan. Em breve, como comentou no podcast, Samuel Renihan lançará uma obra sobre a igreja de Petty France, em que certamente alguns desses tópicos serão esclarecidos. É radicalmente sintomático, e pesaroso, que Sam tenha dito, em tom humilde e jocoso, que essa obra se trata de um “nerd book”. Não é. É o que mais nos deveria interessar. É onde, de fato, residem as questões relevantes. Um corpo de presbíteros se debruça muito menos sobre a natureza da Aliança Abraâmica e muito mais sobre a ordem de culto, sobre a conduta de seus membros, sobre as aflições de suas ovelhas.

Enquanto os Batistas Reformados insistirem em questões mesquinhas, que mais parecem refletir corações encharcados de orgulho do que de piedade, o interesse histórico e teológico sobre a vida e prática batista jamais romperá a barreira da disputa de egos. É preciso seguir em frente. É preciso investigar com liberdade. É preciso compreender a tradição plenamente. É preciso ser pastoral.

 

P.

Matthew Bingham e a rebelião de Thomas Venner: Um problema acerca da “identidade batista” e a relação entre Batistas Gerais e Particulares

Nota: O presente artigo estava bem encaminhado antes que eu tivesse tomado conhecimento da leitura de Matthew Bingham, em Orthodox Radicals, acerca do documento aqui tratado. Ao me deparar com seus argumentos, entretanto, julguei oportuno reestruturar o texto para promover alguma interação com a obra.

*

Matthew Bingham e a morte dos “Batistas”

Em seu mais recente livro, Orthodox Radicals, Matthew Bingham se põe a criticar amplamente os conceitos de “Batistas Particulares”, “Batistas Gerais” e, consequentemente, até mesmo de “Batistas”. Segundo ele, aqueles que hoje nós chamamos de Batistas “Gerais” ou “Particulares”, não se percebiam enquanto tais à época, isto é, eram desprovidos de uma autoconsciência de identidade “Batista”.

Quando historiadores rotulam inadequadamente grupos religiosos historicamente situados, eles “formulam presunções teleológicas sobre padrões de desenvolvimento, sanitarizando condições de desordem e incerteza e obscurecendo indicadores de caminhos não tomados”. Ao adotar, de forma muito casual, o esquema de Batistas Gerais e Particulares e, então, ler as evidências sob essa ótica, arriscamos não compreender os grupos religiosos reais aos quais esses rótulos se referem. Mais premente ainda, ao assumir, a priori, que os separatistas batistas que emergiram do círculo de Jessey se enquadravam confortavelmente sob o rótulo de “Batistas Particulares”, nós inapropriadamente os unimos aos ditos Batistas Gerais. Pois falar em Batistas Gerais e Particulares é assumir alguma espécia de identidade “Batista” abrangente que pode ser significativamente aplicada a ambos os grupos, mas os registros históricos não sustentam essa suposição.

Orthodox Radicals, p. 18.

Bingham defende, portanto, que não é possível falar em uma identidade “Batista” no século XVII. Os grupos chamados de Gerais e Particulares possuem diferenças de tal magnitude que impugnam qualquer tentativa de representá-los de forma conjunta. A rigor, Bingham entende que o próprio termo “Batista” deve ser dissociado desses grupos. Segundo ele, as raras instâncias de cooperação ou parceria entre os grupos considerados “batistas” podem ser negligenciadas justamente por serem raras e circunstanciais. Aqui, nos chama atenção o primeiro – e talvez mais substancial – exemplo da relação entre Gerais e Particulares que Bingham pretende descartar:

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Matthew Bingham, Christopher Blackwood e o problema da “identidade batista”

Como historiador, sou um entusiasta do trabalho de Matthew Bingham. A rigor, Bingham apenas coloca em prática, no estudo dos batistas do século XVII, alguns conceitos básicos para o ofício do historiador – o combate ao anacronismo, o desenho dos círculos de influência, a crítica conceitual etc. – e consegue oferecer, assim, um quadro bem mais realista do que aquele geralmente apresentado pelos teólogos que se aventuram pela história. Parte de seu esforço se concentra em apresentar os batistas como parte integrante do movimento congregacional, intimamente ligado aos Independentes. Mais do que isso, Bingham chega mesmo a questionar a validade das categorias de “Batista” e “Independente” para as décadas de 1640-50.

[…] Durante suas décadas iniciais e formativas, entre 1638 e 1660, os homens e mulheres rotulados de “Batistas Particulares” podem ser melhor compreendidos como congregacionalistas batistas¹ – uma identidade denominacional “Batista” só começaria a se solidificar após a Restauração.²

[…]

Talvez o uso mais antigo do termo “Batista” provenha de William Allen, um membro da congregação independente Arminiana de John Goodwin, em Londres, que deixou a igreja de Goodwin em 1653 para formar uma congregação batista em Lothbury. Em sua Answer to Mr. J[ohn] G[oodwin] (1653), Allen fez várias referências “aos Batistas”, frequentemente em contrastando-os diretamente “aos Pedobatistas”.

[…]

Entretanto, apesar da inauguração do termo durante os anos 1650, seguindo o uso do leigo William Allen, em 1653, nenhum ministro separatista parece ter aplicado o termo “Batista” a si mesmo até que o “Batista Geral” Thomas Grantham o fez em seu tratado de 1663, The Baptist Against the Papist.

Orhodox Radicals, pp. 39-42.

¹ No original, “baptistic congregationalists”. É o termo recorrente que Bingham procura emplacar, historiograficamente, para se referir aos batistas do século XVII.

² Isto é, 1660.

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