Matthew Bingham, Christopher Blackwood e o problema da “identidade batista”

Como historiador, sou um entusiasta do trabalho de Matthew Bingham. A rigor, Bingham apenas coloca em prática, no estudo dos batistas do século XVII, alguns conceitos básicos para o ofício do historiador – o combate ao anacronismo, o desenho dos círculos de influência, a crítica conceitual etc. – e consegue oferecer, assim, um quadro bem mais realista do que aquele geralmente apresentado pelos teólogos que se aventuram pela história. Parte de seu esforço se concentra em apresentar os batistas como parte integrante do movimento congregacional, intimamente ligado aos Independentes. Mais do que isso, Bingham chega mesmo a questionar a validade das categorias de “Batista” e “Independente” para as décadas de 1640-50.

[…] Durante suas décadas iniciais e formativas, entre 1638 e 1660, os homens e mulheres rotulados de “Batistas Particulares” podem ser melhor compreendidos como congregacionalistas batistas¹ – uma identidade denominacional “Batista” só começaria a se solidificar após a Restauração.²

[…]

Talvez o uso mais antigo do termo “Batista” provenha de William Allen, um membro da congregação independente Arminiana de John Goodwin, em Londres, que deixou a igreja de Goodwin em 1653 para formar uma congregação batista em Lothbury. Em sua Answer to Mr. J[ohn] G[oodwin] (1653), Allen fez várias referências “aos Batistas”, frequentemente em contrastando-os diretamente “aos Pedobatistas”.

[…]

Entretanto, apesar da inauguração do termo durante os anos 1650, seguindo o uso do leigo William Allen, em 1653, nenhum ministro separatista parece ter aplicado o termo “Batista” a si mesmo até que o “Batista Geral” Thomas Grantham o fez em seu tratado de 1663, The Baptist Against the Papist.

Orhodox Radicals, pp. 39-42.

¹ No original, “baptistic congregationalists”. É o termo recorrente que Bingham procura emplacar, historiograficamente, para se referir aos batistas do século XVII.

² Isto é, 1660.

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.:Uma definição de “excomunhão”, por Christopher Blackwood:.

Os puritanos, como é sabido, não abriram mão do conceito de excomunhão, mas o apresentaram em termos bastante diversos dos católicos romanos. Christopher Blackwood, em seu Tractatus de Clavibus Ecclesiae, que é dedicado ao trato da disciplina eclesiástica e o exercício do poder das chaves, oferece uma das boas definições de excomunhão que já encontrei:

Excomunhão é um ato da igreja realizado pela autoridade e em nome de Cristo, pelo qual a igreja, de acordo com a forma prescrita por Cristo, separa um irmão ímpio da comunhão dos fieis, especialmente naquelas coisas que concernem ao culto a Deus – e isso para a salvação da parte excomungada e para o bem da igreja e glória de Deus, Mt 18.18,19. 1 Cor. 5.4.

Tractatus, p. 87.

Talvez eu gostasse de substituir “irmão” por “membro”, já que o ato da excomunhão implica justamente a rejeição do status de irmão em Cristo. Talvez eu também quisesse qualificar “coisas que concernem ao culto a Deus”, já que não se trata de excluir alguém do culto em si, mas sim de privá-lo da Mesa do Senhor. Mas quero destacar a dimensão tríplice do propósito da excomunhão: a) a salvação da parte excomungada, e não sua perdição; b) o bem da igreja, uma vez que o pecado é extirpado da membresia; c) a glória de Deus, na medida em que a reputação de Cristo é preservada.

Em outro trecho relevante da obra, Blackwood apresenta, de passagem, uma dimensão frequentemente ignorada do significado da excomunhão:

Sendo a excomunhão uma certa condenação, como o Pai a chama, uma certa antecipação da condenação eterna e o mais alto antejulgamento do grande julgamento, segue-se que um Herege, separando-se dessa forma, condena a si mesmo.

Idem, p. 91.

Em outras palavras, a excomunhão é um tipo, uma sombra e uma proclamação do julgamento futuro. Assim como a Ceia é um tipo, uma sombra e uma proclamação do banquete eterno.

*

BLACKWOOD, Christopher. Tractatus de Clavibus Ecclesiae. In: Some pious treatises. Londres, 1654.

.:Christopher Blackwood e o problema da “administração” da Aliança da Graça:.

Recentemente, Brandon Adams se engajou em uma discussão cordial e saudável com Michael Beck – e, por tabela, com Chris Caughey – acerca da ideia da “administração” da Aliança da Graça no período veterotestamentário, uma posição geralmente irredutível para os pedobatistas. O debate teve desdobramentos nos comentários do blog de Adams e em um post subsequente de sua autoria. A ideia é a seguinte: por meio da tipologia e dos “sacramentos” da Velha Aliança mosaica, isto é, a circuncisão, os sacrifícios animais e outros símbolos, os benefícios da Nova Aliança seriam efetivamente, i.e., espiritualmente, administrados aos santos da Velha Aliança. Dessa forma, os participantes da “dimensão externa” da Aliança da Graça participariam, pelos próprios meios externos dessa aliança, da “dimensão interna” da Aliança da Graça, que seria de fato união com Cristo.

Pois bem. Não pude deixar de lembrar das palavras, um tanto ácidas e jocosas, de Christopher Blackwood, precisamente acerca dessa questão, em debate com Thomas Blake:

Réplica. Uma caixa que carrega uma joia é a parte exterior da joia? Um cano de condução de água é a parte exterior da água? Pois sim, com a mesma boa lógica é que as Ordenanças de Deus, pelas quais Deus transmite sua aliança no sangue de Cristo à alma, são a parte exterior dessa aliança do sangue de Cristo transmitida à alma; teu dito, de que porque as Ordenanças transmitem a aliança, eles são a parte externa da aliança, é uma proposição que se destrói a si mesma, como se dissesses que o jarro de Arão, Ex. 16.33, que guardou o Maná para as gerações de Israel, fosse a parte exterior do Maná. 

Apostolicall baptisme, p. 39.

A conclusão óbvia é que os batistas do século XVII podem ensinar, além de teologia, boas doses de humor.

*

BLACKWOOD, Christopher. Apostolicall baptisme, or A sober Rejoynder to a Book written by Mr. Thomas Blake. Desconhecido.

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