.:Sansão contra as igrejas nacionais, ou Edward Barber e o Espírito da Reforma:.

Edward Barber foi um Batista Geral do século XVII que se tornou uma das vozes mais proeminentes da causa separatista-imersionista. Há quem defenda que tenha sido ele, e não os Batistas Particulares, que reintroduziu o batismo por imersão na Inglaterra. Barber se dedicou especialmente à causa da tolerância religiosa em relação aos separatistas. Mas em três ocasiões, a certa altura de seu tratado An answer to eight queries propounded by the House of Commons, to the Assembly called Divines, sitting at Westminster, Barber cita especificamente o processo da Reforma Protestante e reflete sobre o ideário da igreja nacional, da cobrança compulsória de dízimos e do batismo infantil, concluindo que esses elementos são contraditórios ao espírito e propósito da Reforma.

Portanto, essas Assembleias supremas não são Jure Divino, por vontade e apontamento de Jesus Cristo, mas são todas de Autoridade humana, desconhecidas pelas Escrituras, sendo contra a liberdade, que toda a Igreja de Cristo lhes deu, da qual elas devem desfrutar, nenhuma sendo anterior ou posterior a outra em seus privilégios ou prerrogativas, liberdade e liberalidade a qual todo protestante¹ e Aliançado² é jurado de sustentar e manter.

[…]

Sendo ferida esta besta, ergue-se outra besta da terra, a saber, a partir das invenções terrenas das assembleias, concílios e Sínodos Papais, Ap. 6.13.14. as Estrelas caindo do céu à terra, deixando elas aquelas gloriosas instituições de Cristo, a submersão de verdadeiros crentes, sob confissão de pecados e profissão de fé, assim como a contribuição voluntária dos Santos, ou, como Fox coloca, em seus atos e monumentos, as puras ofertas de Cristo, e [pelo contrário] trazendo para o batismo, ou melhor, para a aspersão de Crianças Naturais, e pelo pagamento de dízimos, erguendo assim Igrejas nacionais sem os quais jamais poderiam tê-lo feito, tampouco poderiam agora mantê-lo, contradizendo assim a regra do Apóstolo Cor. 1.4.6. em presumirem além do que está escrito; mas fossem esses pilares removidos, segundo nosso Protesto e Aliança, e a reforma estabelecida conforme a palavra de Deus (como se pretende), o Reino do Anticristo, como a casa dos Filisteus, cairá sobre suas cabeças, como aquela dos Filisteus, quando de Sansão, aquele tipo glorioso de Cristo, empurrando os 2. pilares sobre os quais a casa se mantinha.

[…]

[…] fingindo-se ministros de Cristos, mas não satisfeitos com sua ordenação, nem mantimento ou salários, obtendo, portanto, ordenanças, como o doutor Burgis³ &tc, e Leis Estatutárias do estado, embora alguns deles tivessem pouca necessidade, possuindo o bastante antes, o que causou maior violação da protestação e Aliança […].

An answer, pp. 11-13.

¹ No original, “protestor”.

² No original, “Covenanter”. O termo é inusitado para a literatura da época. O mais provável é que Barber esteja se referindo aos pactos eclesiásticos celebrados pelas igrejas e que, para muitos separatistas, marcam a instituição de fato de uma igreja. Assim, o “Covenanter” seria um membro de igreja separatista, no caso batista, que celebrou uma aliança em sua igreja local e com ela se comprometeu.

³ Provavelmente Cornelius Burgess, que fez parte do grupo presbiteriano de Edward Calamy, mas que tinha fortes tendências episcopais.

De forma interessante, Barber associa o ser “protestante” com o ser “aliançado”, ou seja, para ele, a verdadeira igreja da Reforma é aquela que se edifica voluntariamente por meio de um pacto. Isso significa que as igrejas nacionais, como a inglesa e a escocesa, e mesmo as igrejas da dita Reforma Magisterial de Lutero e Calvino, por exemplo, ficam aquém do verdadeiro propósito da Reforma “segundo as Escrituras”.

Outro elemento interessante que Barber também sinaliza é a relação entre igreja nacional, sustento estatal e batismo infantil. Sua lógica parece ser a de que a estrutura das igrejas nacionais depende do batismo infantil e do sustento estatal – os dois pilares, como chama – de sorte que o próprio propósito da “aspersão de crianças naturais” (um ácido eufemismo) e o financiamento estatal se tornam meios de sustentação da igreja, e não fins em si mesmos, estabelecidos por convicção doutrinária. São esses dois pilares que, segundo Barber, deveriam ser removidos para que a verdadeira Reforma “caia sobre suas cabeças”.

A pergunta que não quer calar: na metáfora de Barber, ocupariam os Batistas a figura de Sansão?

*

BARBER, Edward. An answer to eight queries propounded by the House of Commons, to the Assembly called Divines, sitting at Westminster. Londres, 1648.

“Crentes não são Abraãos”: John Spilsbery e Nehemiah Coxe sobre o problema dos “filhos da aliança”.

O argumento, em uma casca de noz, é simplesmente este: Deus estabeleceu sua igreja nos tempos de Abraão e colocou as crianças nela. Elas devem permanecer ali até ele as tirar.

B. B. Warfield, The Polemics of Infant Baptism, in: Studies in Theology, vol. 9, p. 408.

*

Os “Filhos da Aliança”

O entendimento pedobatista acerca do batismo de filhos de crentes passa, necessariamente, pela defesa do conceito de “filhos da aliança”. O conceito carrega a ideia de que os filhos de cristãos participariam, de alguma forma, em virtude da relação pactual de seus pais, da nova administração da aliança da graça, tal como os filhos dos hebreus participavam da velha administração da aliança da graça em virtude da relação pactual de seus pais. Calvino assim o coloca, por exemplo, entre afirmações e indagações:

Se a razão há de ser ouvida, se verá indubitavelmente que o batismo é apropriadamente administrado aos bebês como algo devido a eles. O Senhor não outorgou a circuncisão sobre eles, antigamente, sem fazer deles partícipes de todas as coisas significadas pela circuncisão. Ele teria iludido seu povo com simples impostura, se os tivesse aquietado com símbolos falaciosos: essa ideia mesma é escandalosa. Ele distintamente declara que a circuncisão do bebê lhe será no lugar de um selo da promessa da aliança. Mas se a aliança permanece firme e fixa, ela não é menos aplicável aos filhos de Cristãos no tempo presente do que aos filhos de Judeus debaixo do Antigo Testamento.

Institutas, IV, 16, 5.

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Uma resposta sucinta a Timothy LeCroy

É comumente admitido que havia essencialmente dois pontos de vista sobre o batismo na Reforma: aquela dos Reformadores, que era o batismo infantil; e aquela dos Anabatistas sectários, que era o batismo de adultos. Mas um exame mais detalhado revela que o pensamento dos próprios Pedobatistas, já do início da Reforma, é também dividido por uma diferença de opinião que vai bem mais fundo do que a questão se bebês devem ou não ser batizados.

Paul K. Jewett, Infant Baptism & the Covenant of Grace, p. 78.

Críticas preguiçosas merecem respostas sucintas. E duras. É o caso da crítica histórico-teológica ao credobatismo proferida recentemente por Timothy LeCroy, no Theopolis Institute. Ao longo de meus estudos, vi um número muito considerável de críticas bem elaboradas e refinadas por parte dos pedobatistas. Não é o caso aqui. Mas cumpre dizer, logo de início, que respeito a teologia pedobatista e a considero válida (embora não verdadeira). Cabe o diálogo. O que não é tolerável é que o debate seja capitaneado por homens que distorcem vulgarmente os dados históricos e criam espantalhos de seus interlocutores.

Como se sabe, Peter Leithart é fundador e patrono do Theopolis Institute. Leithart é uma dessas mentes brilhantes, mas dadas a excessos indigestos. Leithart acumula diversos insights histórico-teológicos, mas pisa fora das quadras ortodoxas ao esgrimar sua teologia da aliança, recentemente conhecida como Federal Vision.  É espantoso, dada sua erudição, que textos de calibre delgado como este, de Timothy LeCroy, ganhem espaço em sua página.

Copio e traduzo em vermelho, abaixo, os trechos que pasmam por sua imprecisão, erro ou má fé.

[…]

Onde não há uma forte lógica bíblica, ou, onde fortes defesas poderiam ser feitas de ambos os lados, o precedente da tradição da igreja deveria ter peso na tomada da decisão. 

Tal é o caso com o batismo infantil. Ambos credobatistas e pedobatistas apresentam argumentos bíblicos de que estão plenamente convencidos. Assim, a tradição da igreja é frequentemente trazida à discussão para emprestar gravidade ao apoio de um lado ou outro. 

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John Smyth: Batismo, Eclesiologia e Separatismo

Como é sabido, John Smyth foi um dos primeiros ingleses a abandonar os quadros da igreja oficial e defender a instituição de uma igreja credobatista. De suas ações é que deriva a formação da primeira igreja propriamente batista, ainda em solo holandês e mais tarde repatriada sob os auspícios de Thomas Helwys. A figura controversa de John Smyth, que ainda hoje paga o preço por seu suposto si-batismo, é frequentemente associada aos anabatistas holandeses, especialmente em sua versão menonita (o que é uma ironia, já que foi justamente após o reconhecimento do erro de seu si-batismo que Smyth decidiu ingressar oficialmente na igreja menonita, sendo novamente batizado). É interessante notar, entretanto, que Smyth possuía uma leitura pessoal de seus atos no contexto histórico e religioso específico da Inglaterra seiscentista.

Em seu importante – e frequentemente ignorado – tratado The Character of the Beast or the False Constitution of the Church (1609), Smyth descreve como enxerga e defende seu afastamento do separatismo inglês. O tratado se endereça, iminentemente, às igrejas separatistas de Amsterdã (Francis Johnson e John Robinson), tendo como interlocutor direto Richard Clifton, membro da igreja de Robinson. Mas não é difícil perceber que seus ataques respingam, também, diretamente sobre os puritanos ingleses.

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