Uma nota sobre os estudos batistas reformados

Samuel Renihan foi entrevistado recentemente pelo podcast Theology Driven. O tema foi, como seria de se esperar, os batistas do século XVII. Episódios de podcast como este estão por toda parte nos últimos anos.

https://www.podbean.com/ew/pb-yqn63-b9da7b

Eu mesmo já perdi a conta de quantas vezes escutei as mesmas perguntas e as mesmas respostas. Sem meias palavras, é frustrante. A impressão que se tem é que as duas únicas perguntas que hosts de podcasts se prestam a fazer aos Renihan são “de onde vêm os Batistas” e “existe relação entre eles e os Anabatistas?”. Diga-se de passagem, quem faz essas perguntas – e, eu apostaria, a maior parte de quem as escuta – já sabe a resposta.

Por que a insistência nesses pontos? Será que o universo Batista Reformado se resume a essa miséria de ideias? Será que não existe mais nada que possa ser explorado? Até quando vamos viver dessa terra arrasada de reflexões?

O que explica a persistência ad nauseam dessa questão? A resposta é muito simples e preocupante. Ela evidencia que o “público” Batista Reformado, isto é, os hosts de podcast, os teólogos de twitter e os controversistas de facebook não têm nenhum interesse real na tradição Batista Reformada, e mal se dão conta disso. Fato é que pouco lhes importa compreender e resgatar a plenitude e a essência das ideias, dos valores e das práticas dos batistas do século XVII. O que lhes importa mesmo é afirmar seu pedigree reformado. A luta toda, lamentavelmente, se reduz a comprovar aquilo que é menos relevante: que os batistas são provenientes da nobre estirpe dos Independentes. Sequências intermináveis de tweets são feitos todos os dias em defesa da veia reformada batista. Teses inteiras de PhD foram escritas, recentemente, com o único propósito de demonstrar o sangue azul dos batistas. Vaidades.

Não me entendam mal: os Renihan são responsáveis pelos mais relevantes trabalhos até hoje já elaborados e em elaboração sobre o que realmente importa: a tradição dos valores e práticas batistas. Eles não são o problema, são a solução. O problema é a geração, geralmente jovem, de “Batistas Reformados de jaula” que desejam apenas ver afirmada e legitimada sua identidade aristocrática.

Acontece que essas questões só podem despertar um interesse espumante naqueles que não têm problemas pastorais reais para enfrentar. Não é o caso dos Renihan, e por isso suas obras vão sempre muito além dos interesses superficiais dos militantes. Há inúmeras perguntas relevantes que podem ser feitas e que parecem, apenas parecem, ter respostas óbvias. Em que medida a igreja participa do processo disciplinar? O batismo é realmente necessário para a membresia? Quais são os modelos de evangelização missional? Como entender a ação social da igreja? Qual a extensão da influência das associações sobre as igrejas locais? Pressupor que suas respostas estejam dadas é um erro terrível, é cair na armadilha de imaginar que as respostas da tradição são aquelas que gostaríamos que fossem, ou que nos parecem mais provável que sejam. A melhor obra a abordar alguns desses problemas é Edification and Beauty, de James Renihan. Em breve, como comentou no podcast, Samuel Renihan lançará uma obra sobre a igreja de Petty France, em que certamente alguns desses tópicos serão esclarecidos. É radicalmente sintomático, e pesaroso, que Sam tenha dito, em tom humilde e jocoso, que essa obra se trata de um “nerd book”. Não é. É o que mais nos deveria interessar. É onde, de fato, residem as questões relevantes. Um corpo de presbíteros se debruça muito menos sobre a natureza da Aliança Abraâmica e muito mais sobre a ordem de culto, sobre a conduta de seus membros, sobre as aflições de suas ovelhas.

Enquanto os Batistas Reformados insistirem em questões mesquinhas, que mais parecem refletir corações encharcados de orgulho do que de piedade, o interesse histórico e teológico sobre a vida e prática batista jamais romperá a barreira da disputa de egos. É preciso seguir em frente. É preciso investigar com liberdade. É preciso compreender a tradição plenamente. É preciso ser pastoral.

 

P.

GEB, PB, OPB? Dr. R. Scott Clark, (re)intérprete do movimento e da teologia batista.

Não é de hoje que o Dr. R. Scott Clark arranca os cabelos quando ouve a expressão “Batistas Reformados”. Um oxímoro, diz ele, sem meias palavras. A reação é muito parecida, diga-se de passagem, com a dos batistas calvinistas que se ultrajam ao serem postulados herdeiros dos anabatistas. Mas Clark já ultrapassou os limites da ética intelectual, institucional e pessoal do Cristianismo, tendo sido alertado por seus próprios companheiros a respeito de sua má conduta. Um dos interlocutores de Clark costumava ser Brandon Adams, que sempre interagiu de forma cordial e respeitosa para com seu irmão, colhendo disso diversos banimentos, exclusões e restrições de postagem no Heidelblog.

Recentemente, o Dr. Clark decidiu “interagir” com “1689”. Devido à ausência de Adams do blog, quem tem feito as vezes de antagonista maior do teólogo presbiteriano, comentando extensivamente nos posts do Heidelblog em defesa da visão batista reformada, é Amy Mantravadi (que recentemente esteve em um interessante episódio do podcast Mortification of Spin e se prestou a elaborar uma exposição do aliancismo batista reformado em seu blog). Paralelamente, Samuel Renihan, que muito esporadicamente se manifesta em seu site Particular Voices, fez duas postagens, em tom francamente irênico, traçando observações pontuais sobre a visão de Clark (Soft Rain on Tender Grass e We All Have Our Types).

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